A miragem dos médicos no interior do país

Portugal sofre de um problema de falta de médicos, que assume maior proporção nas regiões do interior. Existe uma incapacidade para fixar médicos, particularmente especialistas, nas localidades de média e pequena dimensão. A falta de incentivos e a má organização ajudam a explicar esta situação. As soluções pedem uma mudança de política e de mentalidade.

Este Verão está a ser marcado pelo caos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), com falhas em vários serviços, as urgências em crise e sem médicos, sendo algumas especialidades mais afectadas, como tem sido o caso dos serviços de ginecologia e obstetrícia. Trata-se de um problema a nível nacional a que os grandes centros urbanos do país não escapam. Porém, o problema assume maior gravidade nos hospitais do interior. Há falta de médicos nos diversos serviços e especialidades, o que limita o que deveria ser um acesso equitativo dos cidadãos aos cuidados de saúde, independentemente da geografia.

Para compreender melhor o panorama nos centros hospitalares e nos hospitais do interior, o NOVO falou com dirigentes e representantes ligados à área da saúde. O cenário que traçaram está longe de ser animador para os utentes do interior e o Governo foi alvo de diversas críticas. “É responsabilidade do Governo criar condições para que todos os cidadãos tenham acesso aos cuidados de saúde. Já há situações completamente anormais que começam a entrar na normalidade e que vêm agravar as assimetrias que já existem entre o litoral e o interior”, disse Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM).

Concursos desertos

Os problemas que ajudam a explicar a falta de médicos de uma forma generalizada no país, mas particularmente no interior, são vários: falta de investimento no SNS, falta de incentivos para fixar médicos, uma carga de trabalho muito exigente, horas extraordinárias mal remuneradas e falta de médicos especialistas. Neste último aspecto, Jorge Roque da Cunha afirma que a contratação de médicos especialistas se tem agravado nos últimos dez anos. “Os concursos que são abertos por parte do Governo para contratar especialistas têm vindo cada vez mais a ficar desertos”, refere. O secretário-geral do SIM defende ainda que a “retórica do amor ao SNS deve ser substituída por uma prática efectiva de investimento no SNS”.

Porém, a falta de incentivos é um dos motivos que mais contribuem para o diminuto número de médicos no interior. “Não tem havido nenhuma política de incentivos para que essa situação se altere - não só incentivos financeiros, que são relevantes. Um médico especialista que trabalha 40 horas por semana aufere cerca de 1800 euros líquidos para pagar uma renda de casa e ter uma vida normal. É particularmente difícil terem o mínimo de qualidade de vida quando, nos seus locais de origem, têm o apoio da família e de amigos”, assinala Roque da Cunha.

O presidente do conselho regional do sul da Ordem dos Médicos, Alexandre Lourenço, apontou ao NOVO outro problema: a organização. “Há muitos países na Europa com uma proporção entre equipas e população muito pior do que a nossa mas que não têm estes problemas e constrangimentos, porque se organizaram para funcionar de outra maneira”, sublinha.

Leia o artigo na íntegra na edição do NOVO que está este sábado, dia 6 de Agosto, nas bancas.

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