25 de Novembro: o dia que só alguns partidos querem celebrar

Quarenta e seis anos depois, a discussão sobre o 25 de Novembro continua a animar o debate político. A direita quer dar outra dignidade ao dia que ditou o fim do PREC e há mesmo quem defenda mais um feriado nacional - propostas acarinhadas por quem só nasceu depois de 1975.



Carlos Guimarães Pinto, ex-líder da Iniciativa Liberal, ainda não era nascido quando os militares moderados puseram fim ao PREC, no dia 25 de Novembro de 1975, mas está entre os adeptos de que esta data deve ser celebrada. “Merece certamente ser comemorado e relembrado com uma cerimónia oficial na Assembleia da República. Faria sentido também que no feriado que celebra a transição para a democracia, o 25 de Abril, se lembrasse o papel que o 25 de Novembro teve nessa transição”, diz ao NOVO.

Já passaram 46 anos, mas as celebrações do 25 de Novembro continuam a animar o debate político. Guimarães Pinto admite que a sociedade portuguesa continua dividida e lamenta que “demasiadas pessoas vejam as duas datas como antagónicas quando são parte integrante da mesma celebração”.

Para o ex-líder da Iniciativa Liberal, enquanto “essas divisões se reflectirem na classe política, enquanto a classe política não for capaz de celebrar sem receios essa data importante na nossa transição para uma democracia, saberemos que a nossa democracia ainda está a consolidar-se”.

Os partidos voltaram a dividir-se no debate, na Assembleia da República, há menos de um mês, sobre a proposta da direita para a criação de uma sessão evocativa do 25 de Novembro. Os projectos do CDS e do Chega foram chumbados com os votos contra do PS e da esquerda.

Telmo Correia, autor do projecto apresentado pelos centristas, defende que “uma data destas não pode ser esquecida” e culpa a geringonça pela falta de consenso à volta de uma proposta que classifica como moderada. “Há uma pressão da esquerda radical para que o PS ignore a sua história. Faz um exercício de revisionismo histórico para não incomodar o PCP e o Bloco de Esquerda.”

Revisionismo histórico

Sofia Afonso Ferreira vai mais longe e defende que 25 de Novembro devia ser feriado. A fundadora do movimento Democracia21 lamenta que a data tenha sido “esquecida”. Não faz sentido reabrir uma luta entre a esquerda e a direita, mas é preciso lembrar que “estivemos quase a resvalar para outro regime”, diz a ex-militante do PSD. “Houve um certo revisionismo histórico e esta data foi esquecida porque não interessava”, remata.

Já Nuno Gonçalo Poças, autor do livro “Presos por Um Fio”, considera que não faz sentido que o 25 de Novembro seja feriado, mas a data devia ser assinalada na Assembleia da República. O advogado tem outra explicação para que a discussão continue acesa, mesmo com outros protagonistas: “Estamos a viver uma fase em que não há grandes perspectivas de futuro e optamos por discutir a política do presente com base naquilo que aconteceu no passado.”

A festa do CDS e da IL

O CDS comemora há muitos anos a data com um jantar na Amadora em homenagem ao Regimento de Comandos. “Recordo-me de estar nesse jantar ao lado do Jaime Neves, embora ele não fosse muito dado a esse tipo de eventos”, conta Telmo Correia.

Os centristas defendem que “a celebração do regime democrático não fica completa sem que se atribua ao 25 de Novembro o simbolismo que a sua importância histórica exige, designadamente elevando a data a feriado nacional”. Francisco Rodrigues dos Santos avançou igualmente com uma proposta para a criação de uma comissão organizadora da celebração dos 50 anos.

A Iniciativa Liberal também organiza uma festa desde a sua fundação. João Cotrim Figueiredo defende que “o Estado português devia também fazer essa celebração e uma sessão solene na Assembleia da República”.

Os liberais assinalaram, este ano, a data com vários debates dedicados à juventude. “Quando se conta aos jovens o que se passou na ‘Assembleia Selvagem’ do MFA ou as atrocidades que foram cometidas durante o ‘Verão Quente’, muitos deles ficam absolutamente surpreendidos”, diz ao NOVO Cotrim Figueiredo.

O objectivo do partido liberal é lembrar que “estivemos perto de não viver em democracia” e que “a memória das lutas pela liberdade tem de ser mantida viva”.

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