Opinião

Voltámos ao tempo dos filmes a Preto e Branco?

Susana Duarte


Voltámos aos tempos em que a realidade e a ficção se tocam. Voltámos aos tempos em que existem apenas duas equipas, duas fações, duas opções. Voltámos ao tempo do sim ou não.

Neste cenário imaginário, mas realista, pintado apenas a preto e branco, damos por uma sociedade cada vez mais dividida em dois, como apenas duas faces de uma moeda. Neste imaginário ou estamos do lado dos “bons/heróis”, que julgamos ser sempre o lado a que pertencemos e daqueles com que nos identificamos, ou do lado dos “maus/vilões”, neste canto na maioria dos casos é o canto dos “outros”, daqueles com quem não nos identificamos.

Desde 1974, o caminho do preto e branco tinha vindo a dar lugar ao caminho para convergências, ao debate, ao ouvir e pensar com quem tem preconceitos diferentes dos nossos. Com intuito de conseguir uma opinião mais abrangente, menos preta e menos branca, mas mais cinzenta.

Neste cenário do cinzento, as redes sociais não se encaixam, pois estas são a preto e branco apesar das suas cores, porque ali tudo se resume a 1 e 0. Criam assim não uma única verdade, com vários ângulos e contornos, mas sim várias verdades, que não se tocam. Porque nos rodeamos pelos amigos que gostam das nossas ideias, que querem, veem e ouvem o mesmo que nós e esquecemos quê há outras visões.

Passamos assim, lentamente, de círculos convergentes a quadrados fechados sobre nós próprios sem saber o que é o outro. Até quando nos “mandam” aceitar o outro temos dificuldade, mas na verdade é apenas porque nunca nos preocupamos em conhecer o outro. Porque não queremos fazer cedências, porque nos custa ouvir o que não gostamos, porque nos custa ver o que nunca vimos. Provavelmente porque nos tornamos dogmáticos na busca da nossa verdade pessoal, deixamos as verdades coletivas.

No meio de momentos em que me ponho a ouvir pessoas que pensam completamente diferente de mim, ou que tem visões opostas à minha, dou por mim a fazer um genuíno esforço por as ouvir, mas mais que isso, compreendê-las e chegar à conclusão que o outro até pode ter razão. Perceber o que os leva a pensar, sentir, crer naquilo, e onde as ideias deles se tocam nas minhas. Devemos por isso, parar para pensar, onde começa a verdade do outro e acaba a nossa, será a minha verdade mais completa e real que a dos outros?

Caio em mim e percebo que até este exercício é cada vez mais difícil de fazer com amigos ou familiares. Esta é a prova de que voltámos ao tempo do sim ou não, dos bons ou maus, dos heróis ou vilões, deixamos de acreditar no talvez ou nas convergências entre preto e branco, para criar os vários tons de cinzento. Este tempo de individualismo, verdades e dogmas, poderá levar a que nos aproximemos de extremismos políticos, ideológicos, ficando cada vez mais perto do reerguer de ditaduras na Europa. Voltando assim aos tempos de uma Europa a preto e branco.

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