Opinião

Vera Lagoa, a cronista coloquial

João Villalobos


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A única vez em que estive com Vera Lagoa, nascida Maria Armanda Pires Falcão, foi numa piscina do Club Med em Marraquexe, na segunda metade dos anos 90. Uns dois ou três anos antes da sua morte, portanto. Na altura trocámos apenas banais palavras de cortesia. E dadas as circunstâncias nem a ocasião aproveitei para dizer o quanto admirava a sua frontalidade na vida como na escrita e, em particular, a postura corajosa no período que se seguiu ao 25 de Abril, contrariando com as suas constantes intervenções as prisões arbitrárias do COPCON e alguns dos responsáveis pelo PREC, cujo passado e esqueletos no armário ela conhecia tão bem desde os tempos da outra senhora. E enfrentando também amigos – mesmo que muito próximos - pelas suas posições; Luís de Sttau Monteiro após uma entrevista a Costa Gomes, Ary dos Santos pela ligação ao PCP, entre vários outros.

Agora, a publicação da biografia de Maria João da Câmara, intitulada ‘Vera Lagoa – Um Diabo de Saias’, fez com que uma vez mais tirasse da minha estante esse ‘Bisbilhotices’ que reúne as crónicas escritas nos anos 60. Maria Armanda nunca escreveu bem, no sentido literário da coisa. Nem nessa altura nem depois. A sua prosa tinha mais acutilância do que elegância e era muitas vezes fútil ou falhada quando procurava navegar num vocabulário cuja extensão pouco dominava. Mas, quando decidia abrir feridas, as palavras tinham a precisão de um bisturi ou o poder decapitador de um sabre.

Segundo a biografia de Maria João da Câmara, terá sido Marvine Howe, uma jornalista americana correspondente do ‘The New York Times’ em Lisboa - e que Bárbara Reis, no ‘Público’ perfilou sob o título “A repórter que o regime de Salazar tolerou” - a aconselhar Maria Armanda “a escrever como falava. E Maria Armanda diz que, nessa altura, se fartou de rir e repetiu-lhe o que sempre ouvira da boca de toda a gente relativamente aos seus dotes profissionais: «Que era uma óptima (vejam bem) secretária, mas que não tinha talento para escrever”. (...) Um dia, num amanhecer mais inspirado, talvez recordando o que Marvine lhe dissera, Maria Armanda resolve tomar uma iniciativa: «E se experimentasse escrever? Uma cronicazita, uma despretensão qualquer.» E escreve.”

Desde logo, no prefácio que assinou para ‘Bisbilhotices’, António Valdemar foi visionário, até porque se referia apenas a essas crónicas assinadas no ‘Diário Popular’, dedicadas àquilo que então se designava como vida mundana: “Vera Lagoa cronista de Lisboa da segunda metade do século XX, hoje e amanhã, será encarada como profissional de morgue. Tem o bisturi sempre afiado para se debruçar sobre a mesa anatómica. Mais tarde estas páginas servirão para fazer arqueologia social. Reconstituir o que fomos, na pálida, morna e quieta sociedade portuguesa. (...) nesta terra do Vossa excelência e do chapéu à banqueiro, do cozido à portuguesa e dos sermões do Padre António Vieira; do bacalhau com todos e da historiografia alcobacense de Frei Bernardo de Brito, uma coisa rara e difícil: escrever numa prosa em que não se sente o peso das palavras, construir as frases como quem fala, como quem vive, como quem morre”.

Talvez esteja errado, mas imagino-a muito à vontade hoje no Facebook ou no Twitter, bloqueada por todos aqueles a quem incomodaria – graças a uma memória arquivística e ao revelar de confidências já fora de prazo - com a revelação das contradições de cada um(a). Afinal de contas, Vera Lagoa, a cronista coloquial, viveu sempre como escreveu: Sem papas na língua.

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