Opinião

Vargas Llosa e o “Apelo da Tribo”

Beatriz Gouveia Santos


Em 2010, o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído, pela primeira vez, a um peruano. Mario Vargas Llosa nasceu em Arequipa, no Peru, em 1936, e é considerado por muitos um dos melhores escritores da actualidade, tanto a nível sul-americano como a nível mundial. Agora com 86 anos, Vargas Llosa conta com mais de 70 obras publicadas, entre ficção e não ficção, tendo começado a ganhar fama nos anos 60, depois da publicação do romance “A Cidade e os Cães”.

No entanto, a vida e carreira deste laureado pela Academia Sueca nunca se focaram apenas na escrita e na literatura – e isso torna-o uma personalidade ainda mais interessante. Vargas Llosa também é conhecido pela sua actividade política, que culminou em 1990, quando se candidatou à presidência do Peru pelo partido liberal Frente Democrático (FREDEMO). Acabaria por vencer a primeira ronda, perdendo a segunda para Alberto Fujimori, candidato do partido Cambio 90, que viria a ser condenado por violações aos direitos humanos após dez anos na liderança do país.

Foi precisamente da amálgama entre a paixão pelo trabalho literário e pelo liberalismo que surgiu um dos seus livros mais recentes - “O Apelo da Tribo”, publicado em 2018.

O livro inicia-se com uma espécie de prefácio, em que o autor relata o seu percurso ideológico, desde a juventude até à idade adulta. Desengane-se quem acha que Vargas Llosa sempre foi um liberal fervoroso - durante os seus anos de universidade, foi atraído pelas ideias marxistas e socialistas e, mais tarde, apoiou a revolução cubana, incentivado por uma genuína admiração por Fidel Castro. Estas visões viriam a alterar-se depois de consecutivos ataques aos direitos humanos praticados por Cuba, escondidos por detrás de clamores revolucionários e pró-proletariado. A gota de água correspondeu à prisão do poeta Heberto Padilla. Posteriormente, uma viagem à antiga União Soviética, que acabou por revelar a realidade dolorosa vivida diariamente por muitos cidadãos soviéticos, também contribuiu para a ruptura.

Depois de alguns anos de incerteza, em que explorou vários autores e observou atentamente os desenvolvimentos dos governos de Thatcher, no Reino Unido, e de Reagan, nos Estados Unidos, Vargas Llosa tornou-se um liberal assumido.

Depois desta rica introdução, em que é conseguida uma contextualização brilhante das circunstâncias que marcaram Vargas Llosa, o autor dedica cada um dos capítulos seguintes a cada um dos sete intelectuais que influenciaram o seu pensamento político: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel. Além das principais ideias e obras produzidas por cada um destes grandes nomes do pensamento político ocidental, Vargas Llosa apresenta breves biografias em que expõe o seu lado pessoal. Além disso, tece comentários bastante lúcidos e com respeitável olhar crítico relativos aos seus pontos de vista.

“O Apelo da Tribo”, pelas suas explicações extremamente acessíveis e pela quantidade de informação que comporta, constitui uma excelente obra de iniciação ao liberalismo. Quem achar que ainda não está devidamente informado e preparado para ler obras como “O Caminho para a Servidão” ou “A Sociedade Aberta e os seus Inimigos”, tem neste livro uma compilação organizada e simples das ideias e publicações-chave de cada pensador, podendo escolher, mais tarde, quais deles ler primeiro. Podemos argumentar que há uma carência de autores, e que faltam nomes como John Locke, Stuart Mill ou Milton Friedman, mas lembremo-nos de que esta é uma obra focada no desenvolvimento intelectual e político do seu escritor. E, aí, temos a segunda razão pela qual “O Apelo da Tribo” deve ser lido: porque nos mostra que é possível alguém mudar de posição política quando confrontado com novos factos. Este tópico parece continuar a ser um tabu nos dias de hoje, mesmo nas sociedades democráticas ocidentais. Vargas Llosa mostra-nos que crescer intelectualmente é, também, admitir que podíamos estar errados ou que quem admiramos politicamente pode revelar-se uma desilusão, que não temos de permanecer seguidores se os nossos valores não são coniventes com os dos nossos líderes e que a melhor arma para percebermos que ideias fazem mais sentido para nós são, sem dúvida, os livros.