Opinião

Vamos às Autárquicas: Crónica final – Castro Daire, Murça, Manteigas, Mirandela, Oliveira do Bairro e Braga

Tiago Mendonça


Optei por deixar para o final, com exceção de Braga, municípios menos mediáticos, quase sempre fora dos holofotes da comunicação social e dos analistas, mas que, do meu ponto de vista, assumem uma importância grande nas contas finais que vão ser feitas no dia seguinte (ou na própria noite...) às eleições.

Castro Daire

Em 2005, ganhou o PSD, com vantagem de 700 votos, elegendo 4 vereadores, que numa câmara de sete, garantem a maioria absoluta. Depois em 2009, o PS roubou a câmara municipal e ganhou com 400 votos de vantagem e maioria absoluta. Em 2013, o resultado mais expressivo com o PS a chegar aos 1.800 votos de diferença – significa 54% contra 35% do PSD. Mas, em 2017, o presidente em funções, Fernando Carneiro, perde as eleições para o candidato do PSD Paulo Almeida por 500 votos. Em 2021, nova disputa entre Carneiro e Almeida e o resultado é imprevisível. É uma das câmaras que valem por dois, porque se o PSD perder para o PS vê o fosso aumentar em dois (uma perdida pelos laranjas, uma ganha pelos rosas) pelo que é crucial segurar este município. É uma câmara de all-in. Quem ganhar fica com a maioria absoluta. Para a Assembleia Municipal, em 2017, foi 11-10. O Chega tem candidatura e se para a vereação é difícil, à Assembleia não é impossível. O que em caso de vitória (provável) do PSD obrigaria a mais uma coligação com o partido de Ventura.

Murça

Murça foi socialista em 2005 (12% de vantagem), em 2009 (11% de vantagem) e em 2013 (apenas 2,5% de vantagem – 103 votos). Em 2017 virou, e ganhou o PSD por 120 votos – quase 3% de vantagem. Acredito que o PSD tem todas as condições para revalidar a vitória mas é uma câmara que foi ganha à tangente e que não pode mesmo perder. Veremos! Mas se as coisas correrem mal aqui, é porque a noite vai mesmo acabar muito mal para os lados da São Caetano à Lapa...

Manteigas

Em Manteigas é sempre emocionante. Uma câmara municipal eleita por poucas pessoas, em 2017 votaram 2.337 – mais de 2/3 dos inscritos. Em 2005, ganhou o PSD por...um voto! Sim, um voto! 1327-1326. O PS, não gostou, e retaliou em grande, ganhando em 2009, com uma folgada vantagem de 350 votos – 13% de diferença. Em 2013, nova luta renhida. E nova troca no executivo camarário: ganhou o PSD com 50 votos de vantagem. E em 2017, para não enjoar, ganhou o PS com mais 92 votos, mas desta vez, com um grupo de cidadãos independentes a eleger um vereador e a conseguir mais de 16% dos votos. Este ano vamos ter Célia Morais, que era a vice-presidente, a concorrer pelo Nós Cidadãos. O PSD apresenta Nuno Soares e o PS recandidata Esmeraldo Carvalhinho. Flávio Massano candidata-se por um movimento independente Manteigas 2030. Resultado: imprevisível ao máximo. Mas o PSD tem uma hipótese real de ganhar e de tentar aqui diminuir um pouco o fosso para o PS. É nestes municípios que se decide a vida para Rio...

Mirandela

Mirandela foi reduto laranja seis mandatos consecutivos e com distâncias consideráveis para o segundo classificado. Em 2005, a vitória do PSD cifrou-se nos 47,22% e o segundo classificado até foi o CDS com 35,87%, quedando-se o PS para um terceiro lugar com apenas 10% dos votos. Em 2009, o PS cresceu 15%e o CDS decresceu 20%, invertendo-se as posições. O PSD, porém, venceu com 52,87% dos votos. Em 2013, O PSD voltou a ganhar e a eleger os quatro vereadores que proporcionam a maioria absoluta com uma diferença de 27% sobre o PS que elegeu 2 vereadores, conseguindo o CDS a eleição de um vereador. Porém, em 2017, os socialistas ganharam a Câmara Municipal, elegendo Júlia Rodrigues como presidente, com uma vantagem de cerca de 6%. Para a Assembleia Municipal foi ainda mais renhido com o PS a conseguir mais 63 votos que o PSD. O que se perspetiva? Com a recandidatura de Júlia Rodrigues, penso que o PS voltará a ganhar – mas seria importantíssimo para o PSD conseguir a reconquista. Ventura conquistou aqui 1.643 votos, o que permitiria eleger quatro deputados municipais. Com metade conquistará dois (retirados ao CDS?) e vamos ver se os comunistas aguentam o deputado municipal que elegeram em 2017, embora já em queda, em face a 2013. É um município interessante, para se perceber qual o impacto da queda do CDS, da força do Chega, da capacidade de resistir dos comunistas, e do PSD virar ou não municípios que perdeu por pouco. No fundo, um bom observatório do resto do país.

Oliveira do Bairro

O PSD ganhou esta câmara municipal em 2005, 2009 e 2013 sempre com o CDS em segundo lugar. Mas em 2017, um grupo independente (apoiado pelo PS), fraturou o eleitorado do PSD, elegeu um vereador e a câmara municipal foi parar ao CDS-PP que ficou com uma vantagem de 9% sobre o PSD. O candidato pelo PS, vem desse grupo, admito que numa dinâmica de ascensão dos socialistas seja possível que a coisa vá para perto dos 25%. O PSD teve 32%, mas poderá perder ainda mais, e também não me parece que o CDS consiga manter os 41%. O candidato dos democrata-cristãos tem boa reputação e está no primeiro mandato, pelo que parte como favorito. Seria “escandaloso” o PS ganhar neste reduto. O PSD poderá espreitar aqui uma oportunidade de ganhar mais uma câmara municipal por intermédio de José Carlos Soares. Acho que as margens vão ser as mais curtas de sempre, mas ainda apostaria no CDS.

Braga

Termino esta análise de já várias semanas com uma cidade incrível, Braga. O que se está a fazer no Minho e, muito particularmente, em Braga é de grande nível. Por exemplo, no domínio da educação, a cidade minhota não fica atrás de Lisboa, Coimbra e Porto. É uma das melhores cidades do país para se viver e existe um sentimento de comunhão entre vários agentes na cidade que têm transportado Braga para a primeira linha nacional. Por isso mesmo, decidi terminar com Braga e não com Lisboa ou Porto. Hugo Pires é o candidato socialista que desafia o incumbente Ricardo Rio. O PSD, subiu entre 2013 e 2017 elegendo mais um vereador, beneficiando de uma maioria absoluta muito confortável de 7 vereadores, contra 3 do PS e apenas 1 do PCP. A estrutura local do PS parece estar dividida e mesmo uma dinâmica nacional favorável aos socialistas parece ser insuficiente para abalar a vitória de Ricardo Rio e da coligação liderada pelo PSD, aliás, penso mesmo, que a própria maioria absoluta será muito difícil de retirar ao PSD. Ricardo Rio tem estado muito bem, e ao lado de Carlos Carreiras, é apontado como um excelente exemplo de governação e, diga-se, um dos poucos motivos de orgulho autárquico para o PSD, que terá aqui uma ocasião rara para sorrir na próxima noite eleitoral. Admito a perda do sétimo vereador para o PSD, não sei se ganho pelo PS, ou se por outro partido, mas não da maioria absoluta. É um dos casos mais difíceis para o Chega eleger vereador (embora deva conseguir 1 ou 2 deputados municipais) e a IL terá que penar para eleger o seu deputado municipal. Aposto numa vitória com maioria absoluta do PSD, com dúvidas num vereador, que pode reforçar o lote de vereadores dos socialistas. Admito que seja um reduto onde o PCP pode aguentar a vereação.

31 concelhos depois, chego ao fim desta análise. Porque Portugal não é só Lisboa. Longe disso. Três notas finais sobre o cenário global:

1) Eleição muito favorável para o PS que poderá, perfeitamente, cavar um fosso ainda maior para o PSD, nomeadamente, conquistando muitos municípios ao PCP, que se antevê ser o grande perdedor da noite eleitoral – e só não será mais porque o PS não mete a carne toda no assador em alguns sítios tendo em consideração o orçamento do estado. O Bloco de Esquerda e o CDS são partidos de pouca expressão autárquica, pelo que o resultado não será muito relevante para nenhum. 2) O PSD arrisca o pior resultado de sempre que julgo ditará o fim de ciclo de Rui Rio. É por isso uma janela de esperança para os laranjas que podem, a partir da saída de Rio, trilhar um caminho de afirmação no espaço político à direita (começando por se afirmarem como um partido de direita) na expetativa de federarem as demais forças desse campo político, liderando uma alternativa à governação socialista. 3) A IL e o Chega, partindo do zero, vão ser vencedores. Vamos ver em que escala. O Chega, em particular, pode conseguir eleger muitos deputados municipais e vereadores, obrigando a acordos de governação em diversas paragens. Muito provavelmente será um dos grandes vencedores da noite.

Até para a semana!

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