Opinião

Uma nova cortina de ferro

Luís Naves


Leitura ao acaso do primeiro volume do diário de Vergílio Ferreira, Conta-Corrente. O autor ainda não acertara totalmente no tom da sua prosa, o que conseguiu nos volumes seguintes, que têm passagens fantásticas. Este é porventura o melhor diário escrito por um autor português na segunda metade do século passado, mas esta crónica não é sobre isso. Vergílio Ferreira foi um dos grandes romancistas portugueses, gosto particularmente de Alegria Breve, Estrela Polar, Para Sempre e Manhã Submersa, mas esta crónica também não é sobre isso.

Mergulhado na leitura do diário, julgo perceber que nas sucessivas entradas no período final do antigo regime, o escritor estava descrente e deprimido com o estado do país, mas não antecipava o colapso da ordem política ou sequer uma mudança gradual do regime. “No nosso tempo, Portugal não chega a ser uma província do mundo”, escrevia, em Junho de 1973. Era difícil ser daquele tempo.

Não encontro muitas frases sobre política, mas pequenos detalhes do quotidiano, referências literárias, a narração de encontros e conversas, tudo muito doméstico e de aparência normal, com o ocasional desabafo de quem andava farto dos cromos do regime. Há também entradas sobre a Guerra Fria e a cortina de ferro que dividia a Europa, mas é um tema secundário ou de terceira ordem.

Em volumes posteriores da Conta-Corrente o escritor registou reflexões sobre política, embora mantivesse toda a sua atenção aos detalhes da vida e às reflexões sobre arte e cultura. Os grandes escritores não apreciam escrever sobre a espuma das peripécias partidárias ou os egos inflamados dos seus governantes. No fundo, este autor dizia apenas o essencial, Portugal era um país periférico e medíocre.

No primeiro volume do diário encontramos em entradas de 1973 o eco de um debate literário que marcou a época, a publicação dos livros de Alexandre Soljenitsin, a entrega do Prémio Nobel da Literatura ao escritor russo em 1970. Esta discussão seria ainda mais feroz nos anos seguintes, com o Arquipélago de Gulag e a expulsão de Soljenitsin da URSS. Em Portugal, os intelectuais de esquerda ficaram horrorizados com o dissidente e tentavam encontrar argumentos delirantes para defender as autoridades soviéticas. Vergílio Ferreira, que já percebera a natureza totalitária da esquerda do seu tempo, ia gozando o prato.

Depois da Revolução, os intelectuais portugueses dividiram-se em dois campos, um democrático, o outro comunista. Julgo que isto aconteceu por toda a Europa, num contexto de Guerra Fria e divisão ideológica. Era um conflito de democracias burguesas contra as repúblicas populares, o comunismo contra o capitalismo.

Nos anos 80, isso recordo com nitidez, a esquerda era contra a NATO e recusava toda a expansão dos exércitos. Uma tendência nova, ambientalista e pacifista, acampava em frente às bases da aliança para exigir a desnuclearização do Ocidente ou impedir a entrada de ogivas.

O Portugal imperial e decadente que Vergílio Ferreira vergastou é hoje uma nação periférica da Europa. Em 1973, quem poderia sonhar com a adesão europeia de Portugal? Só um louco, mas o facto é que agora temos democracia, estado social, moeda única, liberdade. Apenas uma discussão persiste, sem tirar nem pôr, igual em 1973 e 2022: a localização do futuro aeroporto de Lisboa.

Em resumo, isto deu uma profunda volta. A esquerda que se abraçava às árvores e só queria paz e amor é agora a grande defensora dos interesses económicos ligados à revolução verde. No que diz respeito à invasão russa da Ucrânia, a esquerda infantil dos anos 80, agora no poder, é a parte mais belicista da aliança ocidental.

A ordem liberal que vigorou nos últimos trinta anos está a ser substituída pelo regresso de uma Guerra Fria, também ideológica, entre democracias e ditaduras. As mudanças são vertiginosas, é impossível não as ver. Uma cortina de ferro está a descer sobre a Europa, desta vez tolerada pelos próprios ocidentais. Deverá ficar numa longa linha sinuosa entre Talinn no Báltico e Odessa no Mar Negro.

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