Opinião

Uma ida ao Museu Berardo

Aline Hall de Beuvink


Fui com alunos visitar a Colecção Berardo e não me foi permitido fazer a visita sozinha: só com guia do museu. Compreensível, embora seja professora de História da Arte. Eis que ouço, não uma explicação sobre os vários movimentos ou a importância e contributo dos artistas representados, mas pérolas como: “Warhol, um homossexual americano” (dizer isto sem qualquer explicação da implicação na sua obra é redutor); “Este Picasso parece uma sardinha” (calculo que o guia estivesse sob efeito dos Santos Populares); “Freud está ultrapassado porque a homossexualidade já não é vista assim” (fundamental no surrealismo, a contextualização é necessária e o guia precisa de fazer psicanálise); “Na minha opinião” (?); “Mondrian fazia tipo árvores” (tipo, isso...); e, a minha preferida, “Quaisqueres trabalhos deste ‘amigo’ são tipo em azul” (é preciso comentar?). Já não basta saber que as confusões com a figura de Berardo têm lesado Portugal, que a não continuação do protocolo poderá acarretar complicações a vários níveis, ainda temos de aturar incompetentes no museu? Ver o percurso da história da arte do século XX na perspectiva das questões woke e do vocabulário coloquial das redes sociais já passou para o universo museológico. Não pretendia uma tese de doutoramento na hora e meia de visita; mas também não me interessa, muito menos aos alunos, o ponto de vista pessoal de um guia que não é historiador, crítico de arte ou especialista em nada do que se via. Talvez, por azar, nos tenha calhado o único guia incapaz. Parece-me óbvio que, neste caso, os problemas não passam só pela manutenção de museus e das suas obras.

PUB