Opinião

Uma estratégia para o Sr. Ventura

Manuel Soares de Oliveira


Não é fácil ser facho em Portugal. Esta semana, o nosso pseudo-ultra-extremista residente acabou um discurso com apelos à máxima “Deus, Pátria, Família e Trabalho”. Muito haveria a dizer sobre as origens desta frase, que a maioria atribui erradamente a Salazar. Mas, para o sr. Ventura, qualquer frase serve o momento e a sua audiência também não é intelectualmente muito exigente.

O nosso sr. Ventura não é muito convincente, falta-lhe a presença física intimidante do velho Le Pen, esse sim, um facho à séria. Igualmente, quando pensamos em personagens como o Mussolini, que física e expressivamente era um personagem de ópera bufa, o sr. Ventura fica longe desse carisma. Mesmo o Trump ou o Bolsonaro são tão castiços na sua mediocridade que achamos que têm carisma.

Os meus amigos de esquerda pintam o sr. Ventura como um perigo imenso, uma ópera wagneriana que deveria intimidar-nos. Mas, nacionalista como diz ser, o sr. Ventura está mais para um personagem do nosso teatro de revista. Vejo-o como um galã revisteiro que entra em palco com o seu já famoso casaco de pele de camelo, a cantar, a dançar e a exercer a sua grande especialidade, que é a de mandar bocas aos nossos políticos.

Até poderia chamar a essa peça teatral-musical “Ó André, Bate o Pé”.

Enfim, os outros países têm uns extremistas criptofascistas a sério e nós, por cá, só temos uma amostra grátis do que um verdadeiro facho deveria ser.

Dizem que Portugal é um país de amadores onde até as meretrizes têm prazer e, por isso, até o nosso facho é amador, uma cópia manhosa da loja do chinês.

Mas como estamos em véspera de acto eleitoral, e apesar de eu ser um homem de esquerda, decidi dar uma pequena ajuda para dar um ar mais apresentável ao partido do sr. Ventura.

Proponho, pois, uma estratégia de comunicação para as próximas legislativas.

Nesta primeira fase, durante o mês de Dezembro, deveria fazer uma campanha a prestar contas aos seus eleitores de todo o seu trabalho no Parlamento desde que foi eleito, há dois anos. É verdade que nenhuma das suas propostas legislativas foi aprovada, o que será embaraçoso de divulgar. Como tal, não aconselho fazer um outdoor com o título “200 propostas, 0 aprovadas”. Talvez se conseguisse mitigar este fracasso legislativo com um outdoor que tivesse um título do género “Eu tentei muito”.

A segunda fase da campanha seria a das propostas do seu partido para estas eleições. Novamente, não aconselho nenhum outdoor com frases do género “Vamos cortar o pipi aos pedófilos” ou “Vai tudo em contentores de volta para África”. Nestes casos proponho algo mais subtil e sofisticado, do género “Deus, Pátria e tesoura” ou “ Todos para África e em força”.

A última fase da campanha será já a 15 dias do acto eleitoral e, aí, deveremos fazer o apelo ao voto. Mais uma vez, sugiro que se abstenha de frases muito directas do género “O país vai endireitar nem que seja à cabeçada”. Bem sei que, para os seus eleitores, uma mensagem mais sofisticada do que esta pode não ser compreensível, mas aconselho algum recato na comunicação, até porque o dr. Rio vai estar atento e querer saber se o Chega já está mais civilizado e se o pode convidar para um café e um ministério.

Neste caso sugiro uns cartazes com frases para construir pontes, do género: “Sabemos comer à mesa”, “ Rio, amigo, o Chega está contigo”. Outra linha possível são cartazes que demonstram o benefício de votar no seu partido: “Com mais deputados do Chega não se notam tanto as faltas”.

Receio, no entanto, que a mais que previsível eleição de vários deputados cheganos venha a trazer um problema acrescido. Enquanto o único deputado foi o sr. Ventura, e dada a sua habilidade oratória, a evidente falta de lógica do seu programa ficou disfarçada. Temo que, com vários deputados com vontade de discursar, venham à tona as suas incongruências programáticas. A atestar o meu receio, veja-se a recente prestação dos candidatos do Chega às autárquicas, em que cada vez que um discursava era um tiro (ou mais) no pé. Há sempre a solução, que ainda recentemente foi testada no Parlamento, de eleger deputados que, quando discursam, ninguém entende nada.

Ficam aqui estas sugestões de mão pouco amiga, a quem faz confusão a falta de consistência do nosso facho residente.

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