Opinião

Uma casa portuguesa com muitas incertezas

Na casa do sr. Costa, poucos ralham e não se discute a razão.

Manuel Soares de Oliveira


A casa da família Costa começava a ter problemas por todo o lado. Era já impossível disfarçar as inúmeras contrariedades. A pintura exterior descascava, a canalização dava problemas, a parte eléctrica estava em curto-circuito permanente e o pessoal doméstico reclamava constantemente devido às condições de trabalho e ao salário.

A vizinhança não percebia este descalabro na casa Costa, pois era do conhecimento geral que a família tinha pedido inúmeros empréstimos bancários nos últimos anos e, portanto, a casa deveria estar um brinco. Um vizinho mais maldoso dizia que o problema era que a família Costa vivia, claramente, acima das suas possibilidades. Outro vizinho gozava com a situação e dizia que se gastasse o que a família Costa gastava na casa e nos empregados, nesta altura teria a melhor casa da rua. Mas, indiferente às críticas, ele lá continuava a achar que fazia uma boa gestão doméstica. Verdade seja dita, ninguém tinha melhor impressão de si próprio do que o sr. Costa. Era um homem de muitas qualidades, sendo a mais evidente a capacidade de nunca ver nenhum problema em lado algum. Esta característica estava na origem de outra qualidade: se ele não via nenhum problema, também não havia necessidade de o resolver. E ao não ter nenhum problema para resolver, também acabava por nunca se chatear com ninguém.

A simpatia era uma qualidade que todos lhe reconheciam. Uma jóia de pessoa. Dava-se bem com todos do lado esquerdo da rua e até do lado direito. Na verdade, ninguém gostava muito dele, mas esse era um pormenor a que o sr. Costa não dava importância. Na sua ilusão de popularidade, ele até achava que todos o queriam como presidente do bairro, um cargo que ambicionava. E, por isso, lá continuava a distribuir abraços pelos vizinhos, pelo menos por aqueles que dele não conseguiam fugir a tempo.

Mas, em casa, a sra. Costa não lhe dava descanso. A casa estava num estado lastimável e era necessário fazer reformas. Mas, “reformas” era uma palavra que deixava o sr. Costa com suores frios. Reformar implicava tomar decisões e, com isso, pode criar-se algum descontentamento, algo que o sr. Costa evitava a todo o custo.

Recentemente, o Pedro, o filho mais reguila, a meio do jantar e aproveitando que o pai tinha ido à casa de banho, anunciou que ele próprio ia resolver alguns dos problemas. Disse isto do alto da cadeira a que tinha subido, enquanto esperava pelos aplausos que nunca aconteceram. O sr. Costa, de retorno à sala de jantar, fica muito zangado com a traquinice do puto Pedro e dá-lhe um cascudo em frente a todos. E assim a família Costa voltou ao seu estado natural de il dolce far niente.

Mas este acto de insubordinação do menino Pedro deixou o sr. Costa incomodado. Será que estava na altura de fazer qualquer coisa em relação à situação ? Onde cortar nas despesas ? De facto, o número de empregados era um bocado exagerado. Havia um cozinheiro, um jardineiro, dez motoristas e mais dois empregados responsáveis pela limpeza da casa. Há uns anos, num acto de grande generosidade, o sr. Costa reduziu-lhes o horário de trabalho e passou a contratar serviços externos para compensar o trabalho que ficara por fazer com a redução dos horários.

O velho sr. De Sousa, um tio idoso que vagueava pela casa, por uma vez na vida mostrou-se preocupado com a decisão do sobrinho. Pareceu-lhe, como a toda a gente, que isso implicava um aumento da despesa da casa. Mas, confrontado com esta desconfiança, o sr. Costa pôs o seu ar mais ofendido e garantiu que a despesa ficaria na mesma. E ainda saiu da sala a resmungar com o sr. De Sousa e a garantir a todos que ele já estava lelé da cuca. O sr. De Sousa ficou descansado com as garantias apresentadas e voltou para o portão da casa, onde passava o dia a acenar aos transeuntes.

E assim continua a vida na casa do sr. Costa, homem simpático e bonacheirão, incapaz de tomar uma decisão, mas quem muitos toleram pois ainda pior parece a oposição.

PUB