Opinião

Uma borla à Netflix: era uma vez no Centro

Octávio Lousada Oliveira


Pode parecer surpreendente para os mais incautos, mas passaram quatro anos desde que Portugal se assemelhou mais a uma fogueira do que a um país. Entre Junho e Outubro de 2017, os incêndios florestais ceifaram 116 vidas, feriram mais de 300 pessoas e desalojaram centenas.

Após os fogos que deflagraram em Pedrógão Grande, Valdemar Alves, o autarca eleito pelo PS (entretanto afastado pelo aparelho por ter assumido uma longa amizade com António Costa), foi o actor principal de uma peça que, alegadamente, combinou negligência, eleitoralismo, nepotismo e fraude. Contudo, não foi só o edil pedroguense que se saiu mal no seu papel. A presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, Ana Abrunhosa, foi, acima de qualquer um dos demais, o rosto da passividade e da conivência com a aplicação indevida de fundos públicos e de donativos no apoio aos territórios atingidos e às populações fustigadas pela tragédia. Foi ela a “responsável” que viu de menos, ouviu de menos, soube de menos e quis apurar ainda menos.

Embora não tenha sido punida criminalmente pelo que quer que seja, a agora ministra da Coesão Territorial – promovida ao abrigo do princípio de Peter ou premiada pelo seu conveniente silêncio – fez vista grossa aos esquemas em torno da reconstrução de habitações ardidas e também das que não arderam. Aceitou sem rebuço que casas onde ninguém residia fossem recuperadas com prioridade e que barracões e ruínas tenham sido transformados em moradias.

A destempo, Ana Abrunhosa lá veio mostrar-se enganada por Valdemar Alves, na altura já caído em desgraça. Mesmo que, pouco tempo antes, tenha disponibilizado às instâncias judiciárias apenas a documentação respeitante às intervenções financiadas pelo fundo público, o Revita. As restantes, onde as patranhas saltavam igualmente à vista, nunca pareceram interessar. Ficaram na gaveta.

Perante este ensaio voluntário sobre a cegueira, o que fez António Costa? Levou Ana Abrunhosa para o Conselho de Ministros, seja ela mais ou menos relevante nas reuniões na Rua Professor Gomes Teixeira. O que nos conduz a uma de duas conclusões, ambas pouco abonatórias para o primeiro-ministro: ou não conhecia o currículo da sua governante (o que seria grave); ou, pior, sabê-lo-ia de cor e comprovava, assim, a indiferença com que encarou tamanho flagelo.

Ora, quando se imaginava que a catástrofe moral tivesse ficado circunscrita a Pedrógão Grande e aos concelhos limítrofes, eis que o NOVO descobre, como expõe a jornalista Ana Martins Ventura nesta edição, que a falta de rigor, zelo e transparência foi “exportada” para toda a região Centro, onde Ana Abrunhosa, antes de ser ministra, tinha jurisdição.

Ninguém quis saber que entulho de cemitérios tenha sido utilizado na reconstrução de casas. Não houve uma alma dos organismos responsáveis preocupada com adjudicações pelo dobro do real valor das obras. Nenhum decisor público torceu o nariz diante das paredes de pladur que crepitam como pipocas de cada vez que um idoso acende a lareira nas frias terras do interior centro.

Daqui a uns anos, pode ser que a Netflix ou a HBO mergulhem no Portugal profundo e exponham a indignidade perante a qual nos calámos. Nessa altura, Ana Abrunhosa já não será ministra. Ainda assim, talvez um vislumbre de que a nossa realidade supera (para pior) a ficção nos provoque o devido sobressalto e a justificada revolta.

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