Opinião

Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la

André Pardal


Nos últimos dias deixaram-nos, infelizmente, Fernando Chalana e o general Almeida Bruno.

Sem nenhum desprimor para os feitos desportivos do “pequeno genial”, seja ao serviço do Benfica ou da selecção de todos nós, que fez parar um país com as suas fintas e dribles, senti-me profundamente envergonhado com a discrepância institucional e mediática que a morte de um herói nacional, a quem muito devemos e, curiosamente, também um fervoroso benfiquista, mereceu.

Com excepção do Exército, que não esquece os seus soldados, do general Ramalho Eanes (seu camarada de curso), de uma singela e discreta mensagem do comandante supremo das Forças Armadas a um dos militares mais condecorados, habitualmente nada parco no que a mensagens de condolências diz respeito, e do presidente da sua (e minha) Associação de Antigos Alunos do Colégio Militar, pouco destaque mereceu a morte do general comando.

Quando muitos dos portugueses de hoje ainda nem a sua verdadeira emancipação conseguiram, aos 38 anos de idade, já o general Almeida Bruno tinha anos de vida perdidos no mato africano, primeiro em Angola, depois na Guiné, sempre brilhantemente distinguido e condecorado, não por participações em grupos de trabalho mais ou menos “amigos”, mas por bravura e exercício de comando em combate, arriscando a sua vida pela pátria, e não por qualquer ideal ou regime político vigente, incluindo o Grau de Oficial com Palma da mais alta condecoração portuguesa, a Ordem Militar da Torre e Espada, e duas Cruzes de Guerra.

Idolatrado por subordinados e superiores hierárquicos, promovido por distinção, com todas as condições para se tornar um dos principais protagonistas do antigo regime, arrisca vida e carreira liderando o “Golpe das Caldas”, que antecedeu o 25 de Abril, pela liberdade de todos, incluindo aqueles que agora, conscientemente, o esqueceram.

Nunca deixando de ser um homem do 25 de Abril e sendo um militar até à medula, soube em democracia, no seu consulado como comandante-geral, nos idos anos 80, modernizar a PSP, lançando muitas das bases para a sua organização actual, como a criação da (então) Escola Superior de Polícia ou do seu Grupo de Operações Especiais, mas também preparar a Academia Militar, no seu exercício de comando, para a incorporação dos primeiros cadetes com destino à GNR, em 1991.

Só uma sociedade (e um país) numa profunda crise de valores e identidade poderá, em primeiro lugar, comparar estas duas figuras, mas, principal e olimpicamente, esquecer um dos seus verdadeiros e recentes heróis.

Porque não há interesses económicos, mediatismo ou iliteracia que o justifiquem, órgãos de comunicação social e instituições do Estado (que Almeida Bruno galhardamente serviu) têm especiais deveres nesta matéria, uma vez que, como diria Edmund Burke, “um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”.

Curvo-me, assim, perante a sua memória, general Almeida Bruno. Zacatraz!

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