Opinião

Um portuguesíssimo ódio ao lucro – Valha-nos a Delta!

Filipe Pinhal


Um leitor de Um portuguesíssimo ódio ao lucro enviou-me o seguinte comentário: Mas acresce que os campeões que apareceram e foram fomentados, no início do século, também não foram grande exemplo. Parecendo que discorda, o leitor só acrescenta razões ao que escrevi antes: a nossa total inabilidade – por razões educacionais e culturais – para produzir obra que se veja no domínio económico, dando razão ao Padre António Vieira que terá dito coisa parecida com: Portugal é um país onde um indivíduo não se importa de viver mal, desde que o vizinho não viva melhor do que ele. Se viver melhor, acrescento eu, é por ter tido cunhas, ter tido sorte, ter sido protegido, ou por ter enganado ou roubado alguém. Reconhecer mérito ao vizinho... isso nunca!

Voltando aos campeões nacionais, vale a pena, como mera exemplificação, fazer zoom sobre as causas da queda de quatro líderes nos respetivos setores: banca, cimentos, eletricidade, telecomunicações:

BCP – Atacado a partir do exterior, soçobrou às mãos de Vítor Constâncio e José Sócrates, para quem José Berardo era mais credível que Jardim Gonçalves;

Cimpor – Enfrentou a investida da Holcim, o maior grupo cimenteiro mundial, mas não resistiu à gestão de Manuel Fino que – antes de torpedear a Cimpor e fazer falir a Soares da Costa – já tinha estado na linha da frente do ataque ao BCP;

EDP – António Mexia, honra lhe seja feita, resistiu quanto pôde à tentativa de domínio chinês, mas o governo preferiu hipotecar a empresa à China;

PT – Henrique Granadeiro, líder de uma administração povoada de boys, resolveu investir (mal) toda a liquidez da empresa e provocar o seu colapso.

Que mostram estes exemplos? Que o país se compraz a matar os seus melhores filhos e a prolongar uma pobreza que vem, pelo menos, desde a loucura de Alcácer Quibir. Acontece isso em consequência dos mais estranhos arranjos, jogos políticos, muita incompetência e ainda maior irresponsabilidade. Haja em vista que, entre 2007 e 2014, desapareceram três quartos do que foi PSI-20, sem que o desaire tenha originado um comentário, uma pergunta, um assomo de preocupação por parte dos órgãos do Estado que têm por missão defender a soberania e o interesse nacional. Da comunicação social, o celebrado quarto poder, o mesmo alheamento: a economia do país afundava e ninguém dava por nada!

Desapareceram, perderam valor ou passaram para mãos estrangeiras empresas cotadas da envergadura do BCP, do BES, do Totta, do BPI, da Cimpor, da EDP, da PT, da REN, do Banif, do BPN, da Cofina e da Soares da Costa, mas foi como se nada tivesse acontecido. O Presidente da República não teve um estremecimento, os deputados não fizeram perguntas, os governantes não se inquietaram, os comentadores preferiram ocupar-se com o “escândalo da semana” e a comunicação social explorar a queda dos gigantes na vertente espetáculo. Em cada ano o país ficava mais pobre, mas a ninguém ocorreu fazer a pergunta que se impunha: Para onde vamos?

Perante o desastre, os polícias – Banco de Portugal, CMVM e Ministério Público – juntaram-se à festa e serviram pão e circo em doses generosas, na forma de fugas de informação. Desprovidos de reais competências investigatórias, preferiram deitar gasolina sobre as chamas a conduzirem investigações sérias baseadas na objetividade, na legalidade e na isenção, únicos critérios que devem guiar a atuação das autoridades.

Os cândidos insistem em desviar a atenção dos erros cometidos para imputarem culpas às crises que, como se sabe, têm as costas largas. As crises pesaram, e muito, mas não explicam tudo. Em Espanha – onde os problemas não são tratados na rua – as crises aterraram de forma igual, mas o Banco de Espanha e a CNVM atuaram responsável e serenamente. O resultado foi que o sistema financeiro espanhol ficou robustecido e o Santander, o BBVA, o Caixabank e o Bankinter vieram aos saldos a Portugal. Não podendo nenhuma empresa do nosso pobre PSI aspirar ao título de campeão, resta-nos o exemplo da Delta, que compete de igual para igual com os grandes nomes do mercado mundial do café. Honra lhe seja!

Infelizmente a história não é bonita! Recordemos os factos: na época em que o patrão da Delta foi levado a tribunal e forçado a fugir para Espanha, estava a ser vítima de ataques do fisco, da Polícia Judiciária, do Ministério Público, dos comentadores e da imprensa. Nas aberturas dos noticiários não faltavam acusações... de contrabandista para cima. Se o senhor Nabeiro não tivesse optado por saltar a fronteira para escapar à perseguição que o país inteiro lhe movia, teria ido parar à prisão e a Delta seria, provavelmente, mais um campeão abatido. Felizmente, a empresa resistiu, cresceu e transformou-se no sucesso empresarial que agora recolhe os aplausos de todos... com o Comendador Rui Nabeiro a receber as mais altas distinções da Pátria.

Haja honestidade intelectual para retirar dos factos as devidas ilações, a começar pelo reconhecimento de que a reabilitação só aconteceu porque os órgãos do Estado, os comentadores e os jornais foram derrotados. E foram derrotados por um homem que teve a coragem de fugir às suas longas garras e a tenacidade para fazer a travessia do deserto, até provar que eram falsas as acusações, perversas as imputações e iníquo o julgamento popular instigado por quem tinha a obrigação de fazer cumprir a lei. Nem todos têm essa felicidade.

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