Opinião

Um partido de futuro incerto

Vasco Rato


Perante a indiferença do país real, os militantes do PSD escolhem amanhã o próximo líder. Num passado não muito longínquo, as corridas à liderança social-democrata dominavam a paisagem comunicacional porque ofereciam esperança a quem procurava uma alternativa política para o país. Com a Aliança Democrática (AD), vislumbrando um país “normal” que pudesse tomar o seu lugar entre as democracias europeias, Francisco Sá Carneiro oferecia um caminho reformista em ruptura total com o situacionismo surgido do processo revolucionário.

Aníbal Cavaco Silva prosseguiu esse rumo, assegurando a modernização da economia e uma sociedade com maior igualdade de oportunidades. Com José Manuel Durão Barroso e Pedro Passos Coelho, impunha-se resolver os problemas deixados pelos governos socialistas. Mesmo atendendo a essa limitação, ambos operaram reformas fundamentais. Hoje, espelhando a descrença que alastra pela nossa sociedade, a corrida à liderança do PSD apenas suscita a apatia generalizada.

O adversário

O próximo líder do PSD terá de entender que a complexa encruzilhada em que o país se encontra resulta da natureza do poder socialista. Uma vez que o PS encabeça as forças mais situacionistas e mais conservadoras da sociedade portuguesa, a prioridade das prioridades reside na construção de uma alternativa credível que possa libertar o país do socialismo. Nada mais claro.

António Guterres e José Sócrates adiaram as reformas exigidas pela moeda única e a globalização, fomentaram o endividamento, criaram dependências no mundo das empresas, colonizaram a sociedade civil e reforçaram os lóbis e as corporações enquistadas no aparelho de Estado.

António Costa voltou a apostar no estatismo como motor do desenvolvimento, assim alimentando um Estado burocrático, devorador e asfixiante que afoga os portugueses em impostos. Entre o garrote fiscal e a incapacidade de gerar a prosperidade, o PS estagnou a economia, fez as nossas empresas perderem competitividade, agravou as desigualdades e avariou o “elevador social”, que assegurava alguma mobilidade.

Em consequência da estagnação nacional, alastram inequívocos sinais de descrença quanto ao futuro. Muitos abandonam o país por deixarem de acreditar na mobilidade social através da educação, do mérito e do trabalho. A deterioração dos serviços públicos convenceu os portugueses que deles mais dependem de que as já de si precárias condições de vida vão apenas piorar. Ainda assim, o PS recusa devolver a liberdade de escolha aos cidadãos porque sabe que a manutenção do poder assenta na colonização das instituições que ainda escapam aos seus tentáculos. Em geral, os portugueses deixaram de acreditar numa sociedade mais decente e na possibilidade de a política inverter o declínio nacional.


O legado de Rio

Neste quadro verdadeiramente desolador, o PSD de Rui Rio fracassou manifestamente em toda a linha. Curiosamente, nenhum dos candidatos que amanhã vai a votos parece interessado em analisar os mandatos de Rio e o que correu mal nos anos mais recentes. Por muito dolorosa que ela possa ser, a preparação de uma alternativa de futuro não dispensa uma avaliação do passado.

Porque esbateu as diferenças com o PS, o “centrismo” de Rio perpetuou a ilusão de que as reformas de que o país necessita poderiam ser feitas em parceria com o PS imobilista de António Costa. À revelia da história do PSD, Rio disponibilizou-se a apoiar a oligarquia de interesses socialistas e, de forma igualmente preocupante, abandonou o campo da luta cultural e ideológica em troca das migalhas de poder que Costa poderia eventualmente oferecer.

Para Rui Rio, os problemas do PSD seriam ultrapassados se o legado de Pedro Passos Coelho – que Rio reduziu à troika e à austeridade – fosse rejeitado. Que os anos da troika foram duros, ninguém pode duvidar, mas o “rioísmo” nunca esteve verdadeiramente disposto a afirmar – preto no branco – que as medidas tomadas pelo governo PSD/CDS tinham uma causa: a gestão desastrosa de José Sócrates e o modelo de desenvolvimento socialista. Considerava apenas Rui Rio que o legado de Passos Coelho afugentaria o eleitorado.

Compreende-se a hesitação de Rio. Se defendesse a acção do governo PSD/CDS, teria de formular um programa verdadeiramente reformista que, por definição, jamais seria do agrado dos interesses instalados. Não se pode exigir reformas sem se mexer com interesses que não encontram vantagem na mudança. Em contrapartida, criticar a austeridade era uma forma simples e encapotada de deixar tudo como estava. Logicamente, durante a campanha para as legislativas, Rio afirmava pretender fazer o mesmo que Costa, mas “melhor”. Ou seja, prometia ser um melhor gestor da teia de interesses construída pelo PS. Não sendo a narrativa de Rio substancialmente diferente da defendida pelo PS, não havia razão para o eleitorado abandonar os socialistas. Com efeito, a maioria absoluta de Costa deve-se aos múltiplos erros de Rio.

Ao posicionar o PSD como partido colaboracionista com o statu quo socialista, Rio abriu espaço à Iniciativa Liberal (IL) e ao Chega. Nos centros urbanos, o PSD perdeu influência e quadros para a IL. Junto das camadas populares e dos descontentes, perdeu para o Chega. As eleições legislativas de Janeiro de 2022 reconfiguraram o espaço político à direita e, doravante, nada será como antes. A estratégia de Rui Rio pôs fim à hegemonia eleitoral do PSD à direita e transformou um grande partido num partido médio. Eis a verdadeira dimensão do desafio enfrentado pelo próximo líder.

Diferenciar, já

Porque nenhum dos dois candidatos pareceu interessado em abordar o legado deixado por Rui Rio, a campanha interna reduziu-se a um confronto entre um Luís Montenegro “combativo” e um Moreira da Silva “com ideias”, porventura úteis se contemplassem a realidade vivida pelas pessoas. Para isso, teriam de ser formuladas em resposta aos novos fenómenos surgidos na sequência da agressão de Putin à Ucrânia, um acontecimento que mudou a Europa e a economia mundial. Não basta repescar ideias tecnocratas há mais de uma década em discussão. Ter ideias nunca foi sinónimo de ter ideias boas.

Outro assunto insistentemente focado prende-se com o estilo de liderança. Usualmente confundido com capacidade de decisão, o estilo de liderança prende-se com a forma como se aborda a decisão. O caso de Rui Rio foi interessante na medida em que se tratava de alguém cujo estilo assertivo desaguava sempre no consensualismo, um tipo de esquizofrenia política que apenas gerou dissonância cognitiva junto dos eleitores.

Era, no fundo, o pior dos dois mundos porque evidenciava uma absoluta incongruência entre as palavras e os actos. Os dois candidatos que agora se apresentam são, desse ponto de vista, consideravelmente mais coerentes. Simplificando, o PSD terá de escolher entre um Moreira da Silva bem-comportado e consensualista e um Montenegro combativo e aparentemente disponível para seguir o caminho do reformismo.

Porém, há questões decisivas para as quais não temos resposta: o que representa, hoje, o PSD na sociedade portuguesa? Quais devem ser as prioridades do partido? Quais são os interesses que o PSD está disposto a desafiar para garantir as reformas? Como irá voltar a atrair os quadros mais dinâmicos? Na ausência de respostas convincentes para estas interrogações, o estilo de liderança e as “ideias” pouco importam.

Infelizmente, o tema das linhas vermelhas em relação ao Chega dominou a campanha. Quanto à estratégia do partido, a conclusão a reter é que Moreira da Silva se recusa a admitir alianças com o Chega e, obviamente, Luís Montenegro é mais prudente. Sabemos, no entanto, que a fórmula de governação dependerá das circunstâncias concretas verificadas depois das próximas eleições. Ainda assim, não deixa de ser revelador que Moreira da Silva considere que o Chega representa uma maior ameaça para o futuro do país do que o poder socialista. Ou que rejeite a possibilidade de estabelecer um diálogo com o Chega e a IL com o objectivo de construir uma proposta de convergência alternativa ao PS. Moreira da Silva emerge, deste modo, como o herdeiro do centrismo de Rui Rio, preconizando um caminho e uma estratégia que levariam o PSD à irrelevância.

O rumo apontado por Luís Montenegro exige ao PSD uma maior separação de águas: pelo menos, não parece estar disposto a trilhar o mesmo caminho que conduziu o PSD à desgraça em que agora se encontra e à qual Moreira da Silva daria continuidade. Seja como for, caso Montenegro triunfe, o seu trabalho começa no dia seguinte. Convém que não se esqueça que o adversário principal é o socialismo e que o PSD só poderá voltar a ser um partido grande se abraçar o reformismo de outros tempos. Parece não ser muito, mas será o primeiro passo para ultrapassar a apatia que o PSD agora provoca no país.

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