Opinião

Um país de totós

Diogo Agostinho


Pode haver fumo, mas, neste país onde cada um vê apenas o que quer ver, ou que lhe convém, nem sempre há fogo. Nas últimas semanas ficámos espantados com as polémicas mais repetidas, mais conhecidas e mais descaradas dos últimos dez a quinze anos. Que admiração, uma verdadeira surpresa. De Berardo a Vieira.

Ricardo Araújo Pereira definiu bem este país. Era sobre o caso Luís Filipe Vieira e sobre Rui Costa. Um número dois que não vê o que se passa com o número um, no limite só pode ser totó, dizia o humorista. E dizia muito bem. O problema, grave acrescento eu, é que somos, de facto, um país de totós. Um país que olha para tudo com esta bonomia de comentar no café, encolher os ombros e seguir, placidamente, para o próximo caso. Não admira que o actual primeiro-ministro nos diga para não nos distrairmos com casos e casinhos. Corrupção? Compadrio? Burla? Fraude fiscal? Branqueamento de capitais? Família em lugares de destaque? Nomeações de políticos para lugares de regulação? Não liguem. Não fiquem a pensar nesses casos e casinhos.

Ora, é perfeitamente “natural” que alguém que foi número dois de um Governo e de um partido, que permitiu uma tomada de poder a um banco privado, com dinheiro emprestado pelo banco público, que procurou com denodo controlar a comunicação social, que pôs em marcha um sistema de vantagens e contrapartidas para amigos e correligionários, mas que não viu nada, nos diga tal coisa. Estava focado. No quê? Na sua carreira e no seu percurso. Não viu o que o chefe de então fazia.

Volto a Ricardo Araújo Pereira. De facto, que totó vai notar que o chefe, a quem neste país se deve lealdade cega, tem atitudes menos próprias? Ninguém. Ninguém, porque neste país manda quem pode, obedece quem deve. E neste país, de filinha indiana para um lugar no poder, a coragem e a consciência firme não são propriamente características admiráveis ou predicados louváveis. Antes granjeiam prémio e recompensa o seguidismo e o carneirismo. E o ficar calado. Aí somos peritos. Calados à espera. À espera da passagem de testemunho do supremo líder. Para um país republicano, esta atitude monárquica de sucessão hereditária é muito pouco abonatória.

Dizia Pedro Passos Coelho, ainda há pouco tempo, que só com confronto se fazem reformas. Mas este país não é de confronto, muito menos de reformas. É um país mais de almoços onde todos se conhecem, onde basta entrar no circuito do poder e dos lugares para se ter o destino traçado, desde que não se veja nada, não se questione e se assine de cruz. O chefe manda. Os totós obedientemente aceitam e obedecem, sem tugir nem mugir. Viva Portugal.