Opinião

Um gestor com qualidades

João Villalobos


É raro, diria mesmo raríssimo, que os nossos gestores públicos se deem a balanços de mandato. E muito menos que o façam sob a forma de um livro. Mas foi isso mesmo que fez Gonçalo Reis, partilhando com os leitores um balanço dos seis anos em que presidiu à RTP, ele que integrou também a administração da televisão do Estado quando então presidida por Almerindo Marques, a quem acabaria por acompanhar depois para a gestão da Estradas de Portugal. Como escreve João Taborda da Gama no prefácio de ‘Serviço Público – A minha vida aos comandos da RTP’, editado pela Oficina do Livro: “Num país em que são poucos os exercícios de memória deixados por servidores públicos, memória que é também e desde logo prestação de contas, alguém deixar escrita a sua história é, em si, serviço público”.

Quando anunciou a sua saída do cargo, em Dezembro do ano passado, corria o rumor – prontamente desmentido pelo próprio numa entrevista – de que seria Gonçalo Reis o escolhido para candidato contra Fernando Medina em Lisboa. Na verdade, o seu perfil correspondia em vários pontos ao pretendido pela direção do PSD: Alguém com provas dadas na vida empresarial e que não fosse exclusivamente um político do aparelho, características em que depois encaixaria também Carlos Moedas.

Gonçalo Reis, aliás, passara já por uma experiência autárquica em 2009 na capital, altura em que chegou a ser classificado na imprensa como “o ‘ministro’ das finanças de Pedro Santana Lopes na Câmara Municipal de Lisboa se este vencer as eleições autárquicas”. Não venceu, mas por muito pouco. Era na altura já apresentado como independente, sete anos depois de ter sido deputado pelo PSD na IX Legislatura e ter estado nomeadamente envolvido nas alterações à Lei da Televisão. E foi com Gonçalo Reis como independente nas listas (e outros igualmente especialistas nas suas áreas, como Lívia Tirone e João Navega) que Pedro Santana Lopes - mesmo enfrentando a pressão do seu aparelho partidário, o que o penalizou também nas urnas - esteve à beira de vencer as eleições à autarquia contra António Costa, não fosse a indicação dada pelo PCP aos seus militantes para que, na Câmara, o voto fosse dado ao atual primeiro-ministro e não ao candidato do partido, Ruben de Carvalho. A diferença final não chegou aos 15 mil votos e os comunistas foram decisivos para esse número.

Regressando a Gonçalo Reis, o livro revela bem sem nunca o exibir como, nas palavras de Isabel Capelo Gil no posfácio, ele “é um curador e um estratega”, tendo orientado a empresa “exercendo uma magistratura de influência”. De uma extrema atenção e simpatia para com os seus interlocutores, sejam eles quem forem (qualidades que aliás como muitas outras partilha com o seu irmão Pedro) sempre o vi como um fazedor de pontes, um diplomata nato, um gestor de equipas. Otimista mas determinado. O futuro pertence-lhe e, com o alinhamento certo dos astros, ainda voltará à causa pública para que beneficiemos novamente das suas qualidades.