Opinião

Um gajo bem-sucedido

Tiago Mendonça


Não sou daquelas pessoas que acham que temos de levar uma vida de grande contenção porque existem outras pessoas com menos possibilidades. Acho, isso sim, que o facto de a vida nos correr bem deve significar gratidão. Mas, como já tive oportunidade de escrever muitas vezes, gratidão, para mim, não significa fazer um post no Instagram com umas balelas sobre darmos as mãos e subirmos à montanha para, ao nascer do sol, agradecermos ao mundo. Acho que ser grato significa ser generoso. A única manifestação prática de gratidão que é verdadeiramente útil é a generosidade.

O dinheiro é sempre um elefante na sala. É uma coisa estranhíssima de que não se pode falar. É verdadeiramente mais íntimo perguntar à pessoa qual é o seu saldo bancário do que a sua posição sexual favorita. É estranhíssimo. Vislumbramos o dinheiro como algo pecaminoso. Simpatizamos, sem conhecer as pessoas, mais com alguém com menos rendimentos do que com mais. Achamos piada a banqueiros ou pessoas que outrora “estiveram bem” caírem. Se pensarmos em pessoas ricas que suportamos, são precisamente aquelas que, pelo menos publicamente, se vetaram a uma vida de grande recato e privação. Isto é um bocadinho estúpido porque, na realidade, o dinheiro pode fazer maravilhas por nós, pelos nossos e por todos os outros.

Fui ao concerto do Sam The Kid. Já à saída, um tipo pediu-me um hotspot do telemóvel para conseguir ir ao Revolut e pagar uma cerveja (absurdamente cara por ser um concerto). E eu, que estava a pedir uma água para mim (ia conduzir, nada contra as cervejas...), instintivamente disse: “Deixa estar, eu pago-te isso.” Ele estava ali todo atrapalhado. É uma cerveja. Saúde. Ele recusou umas três vezes e lá aceitou. Agradeceu muito e depois disse algo que me desarmou um pouco: “És bem-sucedido, não és? Espero que te corra sempre tudo muito bem.”

A associação de pagar uma jola (ainda que absurdamente cara) a ser bem-sucedido deu e dá que pensar. As pessoas não pensam, na verdade, na sorte que têm. Já não vou ao cliché de vivermos num país sem guerra, termos trabalho, saúde, não termos nascido com algum problema grave, termos família, amigos, etc. Mas devia ir, porque damos coisas como adquiridas que muita gente não tem a sorte de ter. Mas enfim. Pensando bem, para muita gente, pagar uma cerveja pode pesar no orçamento. Podia ser uma coisa verdadeiramente relevante. E depois levamos com pessoas a queixarem-se que, de facto, têm tudo. Nos turismos rurais da moda a queixarem-se de que a vida está dura. Num carro bonzinho, numa universidade privada, a queixarem-se de que o escritório paga mal. No outro dia, num dos meus cursos, uma pessoa perguntava-me se uma amiga podia pagar em mais prestações porque só recebia 900 euros por mês. A sério? Quando a maioria dos estagiários ou não recebe ou recebe três vezes menos do que isso? Quando pessoas com 40 anos de carreira recebem menos do que isso?

Acho que um dos grandes problemas é a falta de noção. A noção do “resto”. A noção do quão privilegiados somos. Do que é o salário mínimo. Do que são as opções dramáticas que as pessoas podem fazer. Queixar-me? Por exemplo, respeito muito as viagens que faço. Os três diazinhos em Amesterdão são para ser valorizados. Muitas pessoas não o poderiam fazer e muitas poderiam, mas seria o momento central do ano ou até de um período mais alargado de tempo. Ou ter bilhete de época. Ou até poder pagar a tal cerveja sem pensar muito no assunto. Se as pessoas olhassem para o lado, não com o intuito de se privarem, mas com o intuito de respeitarem mais os outros ao ponto de perceberem que são estúpidas que nem uma porta ao levarem uma vida de queixumes, faziam melhor. Deveriam ser, efectivamente, mais gratas. E quando forem gratas vão ser generosas. E é aí que começa a magia.

Vou beber uma cerveja que não vou conduzir a seguir.

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