Opinião

Um espectro ronda Cuba: o comunismo-ouija

Miguel Granja


Stephen Spender, poeta e romancista de aguçada consciência social, seria inevitavelmente atraído para a causa da luta de classes, tendo pertencido brevemente ao Partido Comunista Britânico (segundo o próprio, «a few weeks during the winter of 1936-37»). É dele um dos ensaios do livro The God that Failed (1949) no qual, na companhia de Gide, Koestler e outros desencantados, relata o seu percurso pessoal de aproximação e posterior afastamento do ideal comunista. Aí, Spender conta como foi repreendido por Harry Pollitt, dirigente do Partido, por «não mostrar ódio» ao capitalismo. O ódio: «the emotional driving force of the working-class movement».

Frequentando cada vez mais as cavernas da dogmática do Partido, Spender foi percebendo aos poucos que, antes de ser uma tirania sobre os corpos (e é-o sempre), o comunismo é uma tirania sobre as mentes, reclamando do pensamento a mesma rendição que impõe à matéria (não há militância verdadeiramente comunista sem a total renúncia àquilo que «a reacção» designa de «pensar pela própria cabeça»). Spender, traindo a causa «da classe trabalhadora», expõe aquilo que continua a ser um traço contínuo, e idiossincrático, da ontologia comunista: ser comunista oferece ao militante o conforto da total isenção do exercício da dúvida – essa anti-comunista primária a soldo das forças imperialistas –, dispensando-o de confrontar a realidade e os opúsculos psicopatas de Marx e Lenine. Na mente comunista, cindida entre a negação teórica do real e o real negador da teoria, a adaequatio rei et intellectus (um apotegma medieval de enorme mérito epistemológico) é na verdade uma adaequatio rei et communicatio committes centralis.

Desta vez é Cuba. Como ontem foi a Alemanha de Leste ou a Rússia e amanhã será a Venezuela ou a Bielorrússia. Cuba, ilha-calabouço, proporciona ao espectador o espectáculo de sempre: um povo que se revolta contra uma tirania, uma tirania que reprime violentamente o povo e, vendo uma coisa e outra, os comunistas portugueses – em geral uma súcia de velhos órfãos perpetuamente transtornados pelo trauma histórico de não terem conseguido trazer para Portugal, após o 25 de Abril, as dádivas da fome e, para matá-la, do canibalismo – a justificar a legitimidade da tirania e da repressão e a ilegitimidade da revolta popular.

A mente comunista, câmara de eco desprovida de qualquer autonomia crítica e ética, funciona num chiaroscuro perfeitamente padronizado e maquinal: nada é bom ou mau senão em função do serviço que presta ao Partido. Uma prisão é boa ou má? Depende de o comunista estar do lado de dentro ou de fora das grades. Uma chibata é um instrumento de tortura ou de emancipação? Depende de o comunista estar com ela na mão ou no lombo. Um fuzilamento é legítimo ou ilegítimo? Depende de o comunista estar com a boca no cano ou o dedo no gatilho. Um genocídio é tolerável ou intolerável? Depende de o comunista ser o seu alvo ou autor.

Spender, percebendo finalmente este mecanismo de autoengano, di-lo de forma lapidar:

During the Spanish War it dismayed me to notice that I thought like this myself. When I saw photographs of children murdered by the Fascists, I felt furious pity. When the supporters of Franco talked of Red atrocities, I merely felt indignant that people should tell such lies. In the first case I saw corpses, in the second only words. I gradually acquired a certain horror of the way in which my own mind worked. It was clear to me that unless I cared about every murdered child impartially, I did not really care about children being murdered at all.

O misticismo do materialismo dialéctico, no qual Spender confessa ter sido enfeitiçado, implica a submissão total do concreto ao abstracto, da experiência à experimentação, do presente ao futuro, dos vivos aos mortos, do ser ao nada: a revolução das vítimas é mais importante do que as vítimas da revolução. O comunismo, no fundo, representa a abolição da própria vítima, num duplo sentido: enquanto libertação da vítima do capitalismo e enquanto anulação da vítima da revolução: se a revolução faz vítimas, é para libertá-las da condição de vítimas do capitalismo. A vítima comunista é a vítima capitalista em processo de libertação da condição de vítima: se o comunismo faz milhões de vítimas, é porque não pode senão libertar toda a humanidade através delas. E não pode libertar toda a humanidade senão – de acordo com a dialéctica macabra em que enrodilha e espirala a História – abolindo-a. Toda a vítima, comunista ou capitalista, é apenas um instante da dialéctica em direcção à sociedade sem vítimas. Quantas mais, melhor. Porque, quantas mais, menos.

O caso da instrumentalização comunista da execução de Garcia Lorca é, para Spender, paradigmático desta dialéctica da vítima:

Another example of the crude propaganda was the use of the murder of Lorca. The fact that Lorca was not a Communist, but a Catholic who in fact fled to Franco territory at the beginning of the War, made his assassination by Fascists the more useful to the Communists. The Communists hate live heretics; but dead ones, so long as the Communists have not killed them themselves, can serve a useful purpose.

Para o comunista, portanto, que jamais confunde a hierarquia das fidelidades, só há dois tipos de pessoas: as que servem e as que não servem os interesses do Partido. E, portanto, da Revolução (porque o Partido é a Revolução). E, portanto, da Igualdade (porque o Partido é a Igualdade). E, portanto, da Humanidade (porque o Partido é a Humanidade). A desumanidade é, portanto, ao contrário do que propagam as teses humanistas, a própria concretização da humanidade: na dialéctica comunista, o humano só se realiza através da desumanidade que abole a desumanidade. Trotsky, Diário do Exílio (1935), sobre a execução dos Romanov, que não pouparia os filhos do czar, as quatro meninas, médicos e aias, o cozinheiro e o cão: «A execução da família do czar foi necessária não apenas para meter medo, aterrorizar e desencorajar o inimigo, mas também para dar um abanão às nossas próprias fileiras, para lhes mostrar que não havia maneira de voltar atrás, que para a frente está a vitória total ou a derrota total». Na derradeira Aufhebung comunista da História, a ascensão do Novo Homem só se dá após a descida à cave do último Romanov para fuzilar o último cão.

A luta de classes é, assim, como mostra Spender, uma luta no interior da própria consciência comunista. É nesse teatro interior de uma consciência individual que decorre o mais decisivo «processo de Moscovo»: aí, a pessoa tem de se convencer de que o inocente é afinal culpado e o culpado afinal inocente, de acordo com o veredicto, previamente estabelecido, do Partido, que, obviamente, tem sempre razão. Mesmo quando não tem razão. Sobretudo quando não tem razão. Porque é justamente quando a razão lhe falta que o Partido tem ainda mais razão. Vejo com os meus próprios olhos a repressão e a miséria em Cuba: o Partido só pode ter razão. Vejo com os meus próprios olhos a súplica e a coragem dos cubanos: o Partido só pode ter razão. Vejo com os meus próprios olhos que é o Partido, e não o embargo, que tiraniza Cuba: o Partido só pode ter razão. O Partido, e não os meus próprios olhos, tem razão. O Partido é o olho dos meus olhos.

Se o Partido me diz que «El Che Vive!», eu vejo o Che vivo. Se o Partido me diz que «Fidel Vive!», eu vejo Fidel vivo. Já não estamos no domínio da racionalidade mas da fantasmagoria. O problema da cegueira autoinfligida de Spender foi resolvido com o recurso ao terceiro olho (o três é sempre dialéctico porque a dialéctica é sempre triádica), porta de saída do aquém-mundo onde o comunismo, sempre sabotado, jamais resulta e porta de entrada do além-mundo onde o comunismo, livre de sabotagem, já resultou.

O espectro que, segundo o Manifesto do Partido Comunista, rondava a Europa, rondará agora Cuba? Desta vez é em Cuba, ao que parece, que a assombração escolheu manifestar-se. O comunismo, que começou como materialismo (totalmente imune às tentações espiritualistas), transformou-se em espiritualismo (totalmente imune às refutações materialistas) e, finalmente, em espiritismo (totalmente consagrado à infalibilidade e infalsificabilidade dos fenómenos mediúnicos). No comunismo actual, onde escasseiam as evidências de igualdade e prosperidade e já só abundam relatos de aparições e avistamentos de xamãs murmurando em transe, o slogan foi substituído pelo mantra e a foice e o martelo pela mesa pé de galo. Do espectro que rondava a Europa no tempo de Marx, restam agora, à falta do espectro, os pasmados necromantes em volta do tabuleiro ouija julgando escutar, a partir das pancadas vindas algures do outro mundo e que abafam os clamores dos cubanos nas ruas deste, mais um interminável discurso de Fidel.