Opinião

Todos podem votar na Direita

António Capela


I. Quem vota na Esquerda?

É relevantíssimo colocar a direita em cheque – qual é o seu eleitorado, qual é o seu programa, qual é, no fundo, a sua identidade? A direita, ao contrário da esquerda, tem dificuldade em encontrar-se. Designadamente porque não há “o pensador” da direita, não há filósofo algum que seja referência consensual para este espaço político: uns são benthamianos, outros maurrasianos, outros hayekianos, outros burkeanos, e assim quase até ao infinito. Contudo toda a esquerda é marxista – mesmo Proudhon, Saint-Simon, Feuerbach, todos eles foram integrados e superados por Marx.

Isto não significa que só haja uma esquerda, assim não o é de facto, porque há muitos marxismos – de Bernstein, a Trotsky, passando por Mao, Lenine, Estaline, Marcuse e outros mais. Porém, devemos sublinhar que praticamente toda a esquerda se coloca sob a asa de um só pensador (que depois é interpretado de diversas formas). Nitidamente, a direita não tem o seu equivalente a um Karl Marx. Isto tem as suas desvantagens e as suas vantagens: pode implicar que seja mais difícil obter uma base comum sólida, todavia pode também significar que a sua base poderá ser mais vasta – lá chegaremos.

Antes de propor uma base comum para a direita, é-nos útil descrever como se ramifica o marxismo pelas diferentes esquerdas em Portugal. A estratégia da esquerda é, desde sempre, dividir para reinar. Marx considera que o avanço histórico procede necessariamente da luta de classes, do conflito. O mais elementar na esquerda é etiquetar as pessoas, colocá-las em grupos fechados; grupos que não respiram, nem dialogam; grupos que se definem sobretudo pela oposição, pelo confronto com outro grupo de interesses antagónicos. Eis a dialéctica marxista no seu essencial - a existência duma classe opressora, que oprime uma classe oprimida.

Ora vejamos, o Partido Comunista subsiste por meio dos sindicatos, estes concernem a sua base eleitoral. A CGTP, em 2019, afirmava ter 550 mil trabalhadores inscritos. Neste ano de legislativas, o Partido Comunista não foi além dos 330 mil votos. Confirmando-se estes números, podemos pressupor que muitos trabalhadores sindicados na CGTP não votam no Partido Comunista e que, além do voto destes, o Partido Comunista tem sérias dificuldades de captação eleitoral.

Quem se surpreende? O discurso do PCP é estruturado a pensar nos sindicatos, a sua forma vive estritamente dependente deste alvo, nada mais importa do que agradar, defender e conquistar este segmento do eleitorado. Não importa quem tem razão, nem o que é justo, nem o que é eficiente – aconteça o que acontecer, o PCP nunca deixará de zelar pelos seus sindicatos.

O Partido Socialista assenta sobre uma base mais vasta, mas a estratégia tem exactamente o mesmo perfil. O PS é o partido do Estado, a sua base eleitoral são os funcionários públicos e todos os que dependem das pensões e/ou subsídios pagos pelo erário público.

Os funcionários públicos em Portugal são mais de 700 mil, os pensionistas são 3.6 milhões. Ao focar a sua estratégia nestes dois grandes segmentos da população, nunca movendo um só dedo para prejudicar nem um, nem outro, fazendo ouvidos moucos a todos e quaisquer considerandos de eficácia e de justiça, o PS arroga-se de advogado inamovível dos interesses destes grupos e garante uma base eleitoral vasta e sólida.

Já o Bloco de Esquerda tem uma versão menos economicista, centra-se em defender outros tipos de minorias. Transporta o conceito de classe para identidades raciais, étnicas, sexuais e culturais. O seu ódio centra-se nos costumes da maioria da população e nas tradições históricas do povo português. Tratam-se de interesses mais nebulosos e difíceis de identificar, mas têm constituído uma base suficiente para a existência eleitoral do partido.

II. Há Direita para além da Esquerda

Poderia então parecer simples a resposta à pergunta “quem vota na direita?” – os que sobram... Porém isto seria um tremendo erro. Essa é, provavelmente, a maior tentação da direita – ser a advogada daqueles que foram abandonados, ou perseguidos pela esquerda.

Em primeiro lugar, se assim fosse, poucos sobrariam. Somando sindicatos, pensionistas, funcionários públicos e outras minorias criativas, a esquerda garantiria a existência de uma maioria perpétua, excluindo deste modo a direita de qualquer possibilidade governativa.

Em segundo lugar, o ponto mais relevante: ao procurar quem sobra, a direita estaria a deixar-se “marxizar”, estaria a imitar o código genético da esquerda. Estaríamos a transformar a direita na esquerda dos ricos, ou na esquerda dos privados, ou na esquerda securitária.

O marxismo, contagiando a direita, coloca-a nas mãos da esquerda; como também, e pior do que isso, promove a visão do conflito, da luta de classes, da divisão - não é, nunca foi, nem nunca será esta a receita que faz próspera uma nação. Como diz muitas vezes o Papa Francisco: “A união é superior ao conflito” – eis um excelente lema para a direita portuguesa.

A direita não deve segmentar o eleitorado e fazer as suas propostas para favorecer determinados grupos. A direita deve apelar a todos, deve ser capaz de criar consciência nacional. Um reformado, que votar na direita, fá-lo-á não porque isso favorece o seu grupo particular, mas porque participa duma consciência maior, porque está preocupado com o seu país. Por isso, de forma oposta à esquerda, a direita deve alimentar o são sentimento patriótico. Deve mostrar a todas as partes da sociedade que beneficiam e precisam do bem do todo.

III. Todos podem votar na Direita

Perante uma questão que faça opor duas partes, a direita não deve partir de fidelidades eleitoralistas, mas deve perguntar-se: neste caso concreto o que é o justo? O que é o melhor para o país? E deve agir em consequência, explicando as suas razões, criando uma consciência nacional (é no seguimento desta linha que muitos sugerem que a direita deve ser pragmática, por oposição ao espírito ideológico da esquerda). No final, deve deixar claro que a boa saúde do todo beneficia as diversas partes. O patriotismo é a receita, que faz vencer os egoísmos e promove a verdadeira eficácia. A política não deve ser o resultado do conflito, mas sim o apelo a algo maior que supere o conflito; não deve ser um choque de interesses distintos, mas a sua integração e harmonização num interesse superior, no interesse de todos, no interesse nacional.

Por exemplo, não é pelo facto da Esquerda defender o público, que a Direita deve defender o privado. O ponto é prévio: não devemos combater a esquerda no seu campo, porque esse campo não dignifica a política e não traz a única perspectiva relevante – o interesse dos portugueses. A irrelevância do critério de verdade, a visão apaixonadamente futebolizante e maniqueísta da política, a desconfiança em relação à cultura de diálogo são doenças que o marxismo tem alastrado para o nosso ambiente político. Esta forma de estar na política faz parte do código identitário da esquerda; porém os agentes políticos da direita em Portugal, de um modo geral, têm manifestado dificuldade em ultrapassar esta visão da política e em centrar-se naquela que deve ser a sua única missão – procurar, propor e servir o interesse nacional.

Deste espírito surge a resposta para superar a velha dialéctica marxista. Neste sentido, encontros como o do sector público com o sector privado não devem ser encarados como um jogo de ténis, no qual o objectivo de um lado é complicar a vida do outro, no qual uma facção quer aniquilar a outra. A disposição necessária é outra: é a das raquetes de praia, desporto no qual ambas as partes trabalham e cooperam para manter a bola sempre no ar, dois lados distintos comungam, participam e colaboram para um mesmo objectivo. Trata-se de ver que o bem do outro é também o meu bem; que cooperando (e não disputando) vamos mais longe; que assim, no fim, todos ficam a ganhar.

Numa das suas célebres citações, Sá Carneiro propõe que se coloque em primeiro lugar os interesses nacionais e somente em segundo os interesses partidários. É por aqui o caminho. Até podemos ir mais longe e afirmar que: o objectivo da direita deve ser a total superação do interesse partidário, de modo a que nada haja no seu programa que não esteja profundamente transformado, incorporado e ao serviço do interesse nacional. A receita não é escolher a quem agradar, não é tratar o eleitorado de forma diversa, não é promover ódios e invejas sociais – é colocar todos sob a mesma bandeira, criar um desígnio, superar a consciência de classe com a consciência nacional.

Portanto, a direita não deve contribuir para gerar divisões estéreis e artificiais. O segredo está em sabermos que, antes de sermos ricos, ou pobres; velhos, ou novos; trabalhadores do público, ou do privado; do campo, ou da cidade; do litoral, ou do interior; do norte, ou do sul - antes e acima de tudo isso - somos portugueses. Neste ideal a direita encontra o seu eleitorado, a base do seu programa e a sua identidade – e vencerá!