Opinião

Terceiro mundo

Gonçalo Almeida


No passado sábado, aquando dos festejos dos adeptos do FC Porto pela conquista de mais um título de campeão nacional de futebol, registou-se uma tragédia digna de verdadeira preocupação social, em particular, o assassinato brutal, em público, de um jovem adepto. Sinal claro de uma sociedade ferida nos seus valores essenciais, em que floresce a violência associada ao desporto, fenómeno responsável por um crescente sentimento de insegurança. Ao que tudo indica, tal episódio teve, uma vez mais, o ingrediente “claques de futebol”, uma realidade problemática, há muito identificada e debatida pelas mais altas instâncias desportivas e pelos sucessivos governos da República. Ora, não ignorando as vantagens que, em teoria, as claques aportam no âmbito do apoio aos clubes, seja com coreografias, seja na preparação e deslocação de adeptos a outros recintos, consta (publicamente) que parte considerável dos seus líderes se dedicam a negócios ilegais ou, no mínimo, suspeitos. Algo que teve uma génese apaixonada e desinteressada assumiu, entretanto, contornos de crime organizado, constantemente associado ao tráfico de drogas ou armas, prostituição ou mesmo à simples revenda de bilhetes (esta última com a absoluta conivência de alguns clubes), não raras vezes descambando na prática de outros crimes de natureza violenta.

De tudo isto, mormente os esforços envidados pelas forças de segurança, impotentes em razão da escassez generalizada de recursos, facilmente se conclui que muito resta ainda por fazer em matéria de investigação, prevenção e condenação das actividades ilícitas levadas a cabo pelas ditas claques, sejam estas legalizadas ou meros “grupos organizados de adeptos”. Exige-se, em suma, uma intervenção bastante mais eficaz do ponto de vista preventivo e coercivo, ao invés de medidas desprovidas de bom senso, como a do famoso cartão do adepto, entretanto já rasgado.

Espelho dessa realidade são as decisões proferidas em 2021 pela Autoridade para a Prevenção e Combate à Violência no Desporto (APCVD), enquanto serviço central da administração directa do Estado, das quais apenas 3% foram remetidas para o Ministério Público (MP), por se verificar concurso com ilícitos de natureza criminal (momento em que a APCVD deixa de ter qualquer ligação processual, passando o processo para a esfera do MP) e 33% foram arquivadas por impossibilidade de identificação ou notificação do infractor, por falta de matéria indiciária ou por outras razões não especificadas.

Perante tamanha impotência para pôr cobro a esta crescente actividade ilícita em torno do desporto (e da sociedade de um modo geral!), afigura-se necessário, salvo melhor opinião, uma autêntica reforma do sistema, conferindo-se ao MP e aos órgãos de polícia criminal as ferramentas necessárias para combater o absurdo em que consiste este tipo de criminalidade a céu aberto, mas também uma justiça capaz de ser verdadeiramente dissuasora.

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