Opinião

Teoria breve do populismo de direita

Rui Rocha


A irrupção de movimentos populistas de direita como os encabeçados por Trump, Bolsonaro, Salvini, Le Pen ou Ventura tem provocado acesa discussão sobre o fenómeno. Nas próximas linhas tentarei enunciar algumas ideias sobre as características destes populismos, as causas do seu relativo sucesso e as formas de o combater.

Como reconhecer populismos? Há duas características essenciais na retórica populista: a) a proclamação do povo como uma entidade homogénea e virtuosa (aí temos o exemplo dos “portugueses de bem”); b) a identificação de um inimigo corporizado numa elite corrupta e centrada nos seus interesses egoístas. O líder populista, naturalmente, responde a um chamamento para combater a elite em nome do povo.

Quais as causas do sucesso? Têm sido identificadas duas causas. Para alguns, a razão principal está relacionada com um processo de fractura sociocultural. As transformações sociais profundas que as sociedades ocidentais atravessaram - massificação da frequência do ensino superior, emancipação das mulheres, erosão da ideia de família tradicional, reconhecimento das minorias, etc. - propiciaram uma reacção daqueles que não se revêem nessas dinâmicas sociais e procuram um enquadramento que permita reencontrar segurança para uma visão do mundo que sentem ameaçada. Para outros, o apelo decorre de razões económicas. A concorrência, a globalização ou a digitalização criam bolsas de descontentamento que se alimentam da percepção de insegurança no trabalho, de rendimentos que não correspondem ao nível de bem-estar desejado, de receios de mobilidade social descendente. Provavelmente, estas explicações não cobrirão todos os motivos. Mas, seguramente, um líder populista saberá explorar as dimensões culturais, sociais e económicas para construir a sua proposta: uma camada de misoginia e homofobia, uma outra de nacionalismo combinada com a identificação de alguns bodes expiatórios (minorias étnicas, imigrantes), e aí teremos a mistura pronta a servir.

Como combater? Os cordões sanitários têm-se revelado ineficazes. As tentativas de isolamento abrem espaço à vitimização (excelente para promover notoriedade mediática) e incentivam a coesão do grupo supostamente acossado. A normalização, por seu lado, também não tem produzido resultados satisfatórios. Muitas vezes, os movimentos populistas, apesar de passarem a integrar o sistema, não alteram o seu discurso, continuando a explorar as brechas sociais e económicas. O único caminho parece ser, assim, o do combate no terreno, com acções concretas. Note-se que as queixas populistas correspondem muitas vezes a distorções da realidade que podem ser questionadas com argumentação e exposição das falácias utilizadas. Outras vezes dizem respeito a problemas reais. Para dar um exemplo, se o discurso populista se centra na corrupção, a melhor forma de o combater passa por desenvolver acções concretas no domínio da transparência, da desburocratização e da eficiência do sistema judicial. Este é um caminho difícil e trabalhoso. Mas parece ser o único que pode dar resultados.