Opinião

Tempos estranhos

Luís Naves


Vivemos em tempos estranhos. Esta quarta-feira, num jogo de futebol em atraso e muito banal da liga francesa, havia um ambiente crispado entre adeptos do Nice que não tinham digerido bem a derrota frente ao Nantes, no sábado anterior, para a Taça de França. Por razões misteriosas, os adeptos começaram a entoar um cântico que insultava a memória de um jogador do Nantes já falecido.

O futebolista Emiliano Sala era argentino e morreu num acidente de aviação em 2019, quando o aparelho em que viajava para mudar de clube caiu no Canal da Mancha. A tragédia serviu agora para pessoas perfeitamente normais, sentadas num estádio de futebol, cantarem frases como “o argentino não nada bem” ou “Emiliano debaixo de água”.

Pensamos sempre que a violência envolve pessoas perversas, mas talvez isso não seja verdade. Pensamos que a violência tem de envolver armas, artilharia, ursinhos de peluche espatifados, mas talvez não seja bem assim. Há muita gente que consegue insultar a memória de um futebolista morto e achar imensa graça e, horas depois, ao ver as imagens do telejornal, mostrar grande indignação com a brutalidade do mundo.

Pessoas perfeitamente normais conseguem fazer coisas perfeitamente estúpidas.

Há provas disso. Nas semanas antes da Primeira Guerra Mundial houve uma súbita mudança na percepção da opinião pública. No início, ninguém ligou muito às movimentações diplomáticas sobre a crise entre a Áustria-Hungria e a Sérvia. O verão de 1914 foi agradável, descrito nas memórias e romances como uma espécie de sonho. A crise política entre os impérios europeus rebentou de repente: os jornais acordaram, começaram a ser publicados artigos inflamados, cheios de proclamações bélicas, as velhas feridas nacionais sangravam nas páginas.

Em poucas semanas, exércitos de jovens tirados à pressa dos campos e fábricas, das pacatas aldeias e pequenas vilas, foram postos em comboios em direcção à frente de combate. Depois, marcharam para o talho em uniforme, em fileiras cerradas que as novas armas industriais cortaram como se fossem searas maduras de trigo. As primeiras semanas da guerra foram um absurdo massacre, de que nenhum país europeu verdadeiramente recuperou.

Na passagem do século, os jornais eram populares e divertidos. Na altura, havia liberdade de imprensa. Depois, apareceu a guerra e a censura. Quando lemos os jornais posteriores a 1914, vemos que a escrita se tornou inflexível, zangada, tóxica, a exigir sacrifícios, vitórias esmagadoras, rendições incondicionais, a recusar a cedência de um único centímetro quadrado de território, a reclamar a morte do inimigo.

Podemos imaginar que isto já não é assim, que os europeus contemporâneos são diferentes, tolerantes e liberais, que vivem o seu sonho de Verão de 2022.A crise internacional a que assistimos com espanto já mudou o mundo, mas não é inevitável que a guerra na Ucrânia alastre ou se torne num conflito nuclear. No entanto, a linguagem já mudou. Vemos a crescente diabolização do adversário, o irredentismo, a intransigência e as ameaças. Devíamos pensar nas coisas perfeitamente estúpidas que aconteceram em 1914.

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