Opinião

Tempestade perfeita

Teresa Nogueira Pinto


Em 2007 houve um aumento dramático do preço dos alimentos no mercado global. Depois houve uma recessão, seguiu-se uma vaga de protestos à escala global, as Primaveras Árabes, a guerra na Síria e a crise dos refugiados. E até hoje existe um debate sobre o peso que o aumento do custo de vida teve no desencadear das revoltas que, derrubando regimes autoritários, originaram conflitos e processos de desintegração no Médio Oriente e no norte de África cujos efeitos ainda se fazem sentir.

Nas incessantes análises e comentários à guerra na Ucrânia e à psique de Vladimir Putin, há um tema ausente. Depois de confinamentos, disrupções das cadeias de produção e abastecimento, aumento dos preços do gás e do petróleo, assistimos agora à subida, sem precedentes, do preço dos cereais e fertilizantes. E que acontece num momento em que a geoeconomia está de volta e as commodities são vantagem estratégica numa guerra que se adivinha prolongada. Para nós, filhos da pós-História, isso talvez não seja claro. Mas é claro para Putin e Xi Jinping, que já no último Verão restringiu as exportações de fertilizantes.

O aumento actual é superior ao que se registou em 2007/08 e a maior parte das economias nos países pobres estão numa posição de maior vulnerabilidade face a choques externos. O espaço de manobra para mitigar os efeitos da inflação é menor e o contexto geopolítico também se alterou substancialmente, e não foi a nosso favor.

O que está a formar-se são as condições para uma tempestade perfeita. Um cenário de pobreza, fome, revoltas e conflitos nas “periferias”, mas cujos efeitos – potencialmente dramáticos – não se ficarão pelas periferias. Era bom falarmos disso.

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