Opinião

Sousa Tavares não faz os TPC. E nós, fazemos?

Octávio Lousada Oliveira


Longe vão os tempos em que Miguel Sousa Tavares nos entrava pela casa armado de argúcia e munido de acutilância para entrevistar as personalidades que lhe aparecessem à frente. Quando devidamente preparado, era um interlocutor temível, capaz de fazer baquear políticos com talento e de desmascarar as fraudes que pululam no espaço público.

De há vários anos a esta parte, Sousa Tavares (que, entretanto, anunciou o fim da carreira) desleixou-se. Deixou-se enlear por preconceitos, perdeu qualquer réstia de adesão à realidade e parece só descer à Terra uma ou duas vezes por semana para a sua prédica travestida de diálogo jornalístico. Sousa Tavares é uma caricatura do profissional que outrora foi, uma sombra do entrevistador que se preparava com afinco e que embaraçava os convidados mais incautos. O Sousa Tavares caçador furtivo tornou-se uma espécie de Sousa Tavares presa fácil, até para vegetarianos como Inês Sousa Real ou coléricos como Pedro Nuno Santos.

Contudo, esta semana, foi uma pergunta desajustada dirigida a António Costa, na TVI, que se tornou viral nas redes sociais. O pecado de Sousa Tavares foi questionar o primeiro-ministro sobre um cenário em que um “jovem altamente qualificado” entrasse para o mercado de trabalho com um “belíssimo salário” para a nossa realidade. Tradução: 2700 euros brutos. E lamentou que o Estado lhe ficasse com 1300 euros desse rendimento (entre IRS e contribuição para a Segurança Social).

Não foram precisos muitos minutos para que os furiosos do Facebook, Twitter e TikTok expusessem os erros cometidos por Sousa Tavares no seu trabalho para casa (TPC). Primeiro: o truísmo - a “geração mais qualificada de sempre” não aufere valores dessa ordem. Segundo: a contabilidade pura - com um ordenado ilíquido de 2700 euros, o Estado encaixa mil euros e o trabalhador leva para casa 1700. O resto era previsível: activistas, sensível ou completamente idiotas, peroraram com quase tanto de moralismo quanto de futilidade para a “geração mais qualificada de sempre” em busca de likes e urros.

Sem negligenciar o quadro franciscano dos salários que este país tem para oferecer - que nos deveria conduzir a outra discussão, mais profunda e serena, sobre produtividade, criação de riqueza e redistribuição -, seria interessante que os guerreiros sociais de sofá olhassem para o ângulo morto desta questão. Em Portugal, para que um trabalhador consiga atingir os 1400 euros líquidos por mês, a empresa tem de despender perto de 3400. A voracidade fiscal do Estado é transversal, não importa que o cidadão esteja no princípio, no meio ou no fim da carreira. Contribuinte bom é contribuinte esfolado.

Seja como for, existe uma dimensão mais preocupante nisto tudo. Não sei se cultural, se patológica. Sem rendimentos adicionais, alguém a quem caiam 1400 euros/mês na conta bancária não é rico ou, sequer, privilegiado. Não consegue residir nas Avenidas Novas ou na Foz. Não pode conduzir um Mercedes ou sentar-se com regularidade à mesa do Gambrinus ou do Eleven. Não vive folgadamente; tem uma vidinha frugal. Sobrevive para pagar contas e cometer uma ou duas “excentricidades” a cada 30 dias.

Claro que é mais fácil e popular fazer bullying a Sousa Tavares pela sua alienação do que repudiar o caminho de miséria que teimamos alegremente em trilhar. Em matéria de preguiça, estamos perfeitos para Sousa Tavares.

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