Opinião

SOS burnout: os psicólogos também precisam de ajuda? Primeiro estudo com caracterização nacional em Portugal

Sónia P. Gonçalves


Está a ser realizado o primeiro estudo a nível nacional sobre burnout em psicólogos/as portugueses. A equipa, coordenada pela prof.ª Sónia P. Gonçalves, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, é composta por sete psicólogos distribuídos pelo país (Porto, Coimbra, Lisboa e Algarve).

Mas o que é o burnout? Corresponde a um estado de exaustão física, emocional e mental causado pelo envolvimento, por longo tempo, em situações emocionalmente desgastantes. Caracteriza-se por três sintomas principais (Maslach, 1982): exaustão emocional (sentimentos de desgaste e esgotamento dos recursos emocionais), cinismo (adopção de atitudes negativas, frias e distanciadas face ao trabalho); e redução de realização pessoal (diminuição de sentimentos de competência e eficácia profissional). Estas situações desgastantes decorrem da discrepância entre as demasiadas exigências da situação e os poucos recursos do indivíduo para a enfrentar (Lazarus & Folkman, 1984). A prevalência do burnout é variada e depende do grupo profissional e do país, mas estima-se que seja entre 3 a 29% (e.g. Schaufeli & Enzmann, 1998; Carod-Artal & Vázquez-Cabrera, 2013), podendo afectar profissionais de todos os grupos. Todavia, a investigação tem vindo a demonstrar que os profissionais de ajuda e cuidado ao outro tendem a apresentar valores superiores. O conhecimento da prevalência e dos factores antecedentes é um elemento-chave para que possam ser traçadas estratégias individuais e sociais para a prevenção de um quadro que pode ter consequências muito negativas.

Porque é importante estudar o burnout nos/as psicólogos/as? A investigação na área do burnout tem sido tendencialmente circunscrita a determinados grupos profissionais, nomeadamente profissionais de saúde (médicos e enfermeiros), de educação (professores) e de segurança (polícias). Todavia, a evidência sugere que é relevante estudar outros grupos profissionais, como assistentes sociais, terapeutas, trabalhadores de gerontologia e lares, profissionais de reabilitação e psicólogos, que são igualmente grupos vulneráveis ao desenvolvimento de burnout (Jenaro et al., 2007; Thomas et al., 2014; West, 2015). Focando-nos nos psicólogos, são profissionais com um papel de extrema relevância ao nível da saúde mental e do apoio a indivíduos e populações vulneráveis e em risco de distress devido à natureza emocionalmente exigente do seu trabalho quando comparado com outras profissões. No actual contexto de pandemia, a saúde mental assumiu um destaque de relevo e, com isto, também os profissionais que prestam apoio a este nível. Contudo, estes são, também eles, profissionais que podem adoecer. Mais ainda, dado que o trabalho dos psicólogos tem impacto directo no bem-estar e saúde dos seus clientes, este estudo torna-se relevante a uma escala global, uma vez que o burnout pode ter efeito na qualidade dos cuidados prestados e, portanto, implica todos os cidadãos de forma indirecta.

Neste contexto, a recolha de dados que a equipa leva agora a cabo decorre com o intuito de caracterizar a prevalência de burnout nos psicólogos e identificar os seus antecedentes e consequências nesta classe de profissionais. Este estudo é destinado a todas as psicólogas e psicólogos a exercer em Portugal, que poderão dar o seu contributo ao preencher um questionário disponibilizado online, divulgado pela equipa e pela Ordem dos Psicólogos Portugueses.

A equipa pretende apresentar o estudo no final do primeiro trimestre de 2022 e conta que os seus resultados possibilitem a afirmação desta classe profissional, bem como a definição de políticas públicas e privadas que protejam a saúde de quem cuida.

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