Opinião

Servir o País e as Forças Armadas

Alexandre Guerra


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O vice-almirante Gouveia e Melo está a prestar um grande serviço ao País. É certo que foi poupado aos tempos iniciais da escassez de vacinas e da desorientação europeia. É também verdade que, aqui e ali, continuam a ouvir-se relatos de alguns problemas logísticos na vacinação Covid-19, mas episódios perfeitamente aceitáveis num processo com esta complexidade e dimensão. Não sendo o propósito deste texto debruçar-se sobre o processo em si, que vai seguindo o seu caminho a um ritmo bastante apreciável e, sobretudo, em linha com o cronograma previamente definido, tornando-o previsível e fiável – o que no habitual contexto nacional, onde prazos nunca são cumpridos, é louvável. De certa maneira, esta constatação entronca na consideração principal que gostaria de sublinhar nesta coluna e que tem a ver com o valiosíssimo serviço que Gouveia e Melo está a prestar às Forças Armadas nacionais em termos de notoriedade e de reputação. Notoriedade quanto às inúmeras capacidades que as Forças Armadas podem projectar na sociedade portuguesa e reputação relativa à competência com que o fazem.

Que não haja equívocos, as Forças Armadas em Portugal ou em qualquer outro país do mundo terão sempre como missão principal a “arte da guerra”. Seja numa lógica clausewitziana, em que aquela se apresenta como uma extensão da política – ou seja, é vista como um acto racional dos governantes em prol de um determinado interesse –, seja por uma questão de necessidade ou pela natureza violenta intrínseca do Homem, a “guerra” tem sido uma constante na História dos povos e nada indica que a Humanidade altere num futuro próximo a sua predisposição para comportamentos conflituosos e bélicos. Dos grandes aos pequenos conflitos, dos clássicos aos assimétricos, das guerras transacionais às de cariz tribal, as Forças Armadas tiveram que ir acompanhando a evolução na forma de fazer a guerra. A doutrina e os conceitos estratégicos foram evoluindo, repercutindo-se depois na operacionalização e projeção das forças.

Em diferentes momentos da História das nações, os militares foram chamados a intervir, fosse na primeira e na última linha de defesa da integridade territorial de um Estado, fosse na conquista de espaço vital, fosse no apoio a um aliado ou no combate a um inimigo externo. Nas últimas décadas, os militares viram alargar o seu leque de acção, quer no âmbito de missões humanitárias, quer em operações de implementação ou manutenção de paz no quadro das responsabilidades internacionais assumidas pelos Estados. E no passado mais recente, novas ameaças assimétricas obrigaram à criação de outros paradigmas para a projecção de poder militar de forma cirúrgica contra inimigos muitas vezes dissimulados e difusos. Outras ameaças “invisíveis” também emergiram, potenciadas por uma globalização cada vez mais interligada e complexa, crescentemente dependente de novas tecnologias, ciber-tecnologias e biotecnologias que criam muitas oportunidades de ameaça para inimigos sempre prontos a desafiar a ordem e a estabilidade das sociedades. Mas não só. As perturbações de natureza ambiental cada vez mais agressivas, as evidentes repercussões das alterações climáticas e o surgimento de pandemias que, dizem os especialistas, serão cada vez mais recorrentes, têm colocado novos desafios ao conceito de “ameaça” à integridade do Estado e à segurança dos cidadãos.

Com mais ou menos sucesso, as Forças Armadas nacionais e estrangeiras têm procurado encontrar novas doutrinas e paradigmas que sejam capazes de enquadrar as diferentes valências da estrutura castrense face aos novos “inimigos” que ameaçam o bem-estar das sociedades. De certa maneira, estes novos desafios obrigaram a um reposicionamento dos militares nas sociedades ocidentais, gerando inclusive um debate sobre aquilo que deve ser o seu papel num mundo que pouco tem a ver com o antigo sistema bipolar de Guerra Fria. A pandemia da Covid-19 veio acentuar essa discussão e enfatizar a importância das Forças Armadas numa crise de saúde pública. Não tanto pela sua capacidade bélica, mas sobretudo pelo seu treino apurado e capacidade única de dar respostas logísticas e operacionais que mais nenhuma estrutura civil é capaz de dar. Os seus militares e oficiais são formados e treinados numa lógica muita hierárquica e sob doutrinas precisas, que almejam a protecção dos cidadãos e a defesa dos interesses nacionais, seguindo rigidamente o mandato que recebem dos decisores políticos.

O vice-almirante Gouveia e Melo recebeu um mandato político e está a cumpri-lo com a mesma focagem como se estivesse a liderar uma esquadra de submarinos ou de fragatas, ou como desempenhou a liderança da EUROMARFOR. No entanto, tratam-se de cenários diferentes, sendo que o trabalho desenvolvido no âmbito do plano de vacinação implica uma relação intensa diária com a sociedade civil, o que exponencia consideravelmente a visibilidade das valências militares que estão a ser aplicadas no terreno por aquele oficial da Marinha. A notoriedade a que me referi no início do texto vem daí, porque embora as Forças Armadas portuguesas desempenhem um trabalho de excelência em território nacional e nas missões internacionais, a verdade é que essa realidade tem pouca atenção mediática e tende a estar muita distante da opinião pública, quem nem sempre está consciente das capacidades e potencialidades dos militares nacionais. Ao coordenar um plano que implica directamente com as suas vidas de forma muito evidente e visível, Gouveia e Melo “entra” diariamente na casa das pessoas e é reconhecido pela sociedade civil como tendo a capacidade de levar por diante uma resposta eficaz e competente no âmbito de uma crise pandémica. Esta percepção pública contribui para o aumento da reputação das próprias Forças Armadas, evidenciando a sua importância numa sociedade que se viu confrontada com um novo “inimigo”. E, por isso, para lá daquilo que são as funções históricas e clássicas que as Forças Armadas têm desempenhado e continuarão a desempenhar, é muito provável que os militares portugueses venham a ser chamados à sociedade civil para intervir em crises futuras de natureza ambiental ou de saúde pública, que ameacem directa ou indirectamente os cidadãos e os interesses nacionais.

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