Opinião

Será que os portugueses produzem pouco?

David Pereira de Castro


Ano após ano vão surgindo um conjunto de notícias e relatórios com dados macroeconómicos afectos à produtividade nacional e o seu comparativo no conjunto da União Europeia. Este ano não é excepção. Mais uma vez, como tem vindo a ser hábito, os primeiros grandes chavões a surgir caracterizam-se habitualmente por: “Portugueses produzem pouco”; “Portugueses são dos que trabalham mais horas”; e “Portugal tem baixa produtividade”.

Estes preconceitos desajustados do que a produtividade efectivamente representa têm vindo a destruir qualquer cultura laboral ou fonte motivacional que se possa ambicionar em Portugal. De facto, existe um problema de produtividade afecto à estrutura económica do país que leva a resultados alarmantes. No entanto, pouco se debate sobre o que isto efectivamente representa. Sem querer entrar muito no detalhe da fórmula de cálculo destes dados, visto existirem várias abordagens possíveis, importa esclarecer que a mesma é calculada com base na receita gerada em determinada escala, ou seja, em contexto nacional, o produto gerado (produto interno bruto) sobre as horas trabalhadas por pessoa empregada. Mais uma vez, simplificando ao máximo este tema, caracteriza-se pela receita gerada sobre a hora trabalhada.

É precisamente neste contexto que a perspectiva do problema começa a mudar. Se o numerador é baixo, ou seja, se a receita gerada é baixa, é evidente que quanto maior o denominador, i.e., quanto mais horas trabalhadas, menor será a produtividade. Isto não tem necessariamente a ver com o número de actividades executadas nem com a qualidade do trabalho do factor humano, mas, acima de tudo, com o valor monetário do que é produzido e, consequentemente, com a eficiência do capital. Importa ressalvar que abordar as circunstâncias laborais em que os trabalhadores portugueses se encontram é de elevada pertinência, seja relativamente ao horário de trabalho, aos salários pagos, ao tempo disponível para as famílias ou ao acesso a formação contínua, entre outros factores essenciais. Essa abordagem é igualmente fundamental para resolver o problema. No entanto, entendo de extrema pertinência evidenciar a pouca produtividade do capital em Portugal.

Quando comparamos os vários indicadores que compõem a produtividade, especialmente no contexto europeu e, em particular, quando olhamos para países com características demográficas semelhantes ou até com menor acesso a recursos humanos, notamos uma disparidade gritante. No intervalo de países entre os 8 e os 12 milhões de habitantes em contexto europeu, já para não falar de alguns que se encontram no intervalo dos 5 e 7 milhões de habitantes, percebemos rapidamente que o valor da receita gerada é francamente superior ao contexto português — na sua grande maioria, a média de horas trabalhadas por semana varia entre 4 e 9 horas a menos que em Portugal. Este fenómeno deve-se essencialmente às características económicas dos serviços e produtos gerados em Portugal quando comparados com os restantes. Infelizmente, o país não aposta no desenvolvimento de actividades económicas de alto valor acrescentado capazes de gerar receita agregada suficiente para uma maior e melhor redistribuição. É indiscutível a existência de bons exemplos, como em tudo na vida, mas esses não são suficientes para captarem riqueza suficiente no território nacional de modo a mobilizarem a economia interna do país. Quando olhamos para a balança comercial portuguesa, facilmente identificamos as circunstâncias críticas em que o país se encontra. As características dos produtos e serviços exportados em contraponto com os produtos e serviços importados demostram um problema crónico no numerador (receita produzida) que jamais será invertido por via da culpabilização do denominador (hora trabalhada).

Ora, se é certo que é urgente abordar o excesso de horas despendidas no local de trabalho de forma desnecessária, assim como todos os factores motivacionais afectos à capacidade produtiva dos recursos humanos, parece-me por demais evidente que é tempo de mudarmos a lente do debate sobre este tema. É o momento de iniciarmos o debate sobre a transformação do que produzimos e servimos ao invés das qualidades de produção dos portugueses, algo que a História já demostrou estarem ao nível das circunstâncias exigidas.

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