Opinião

Saúde mental: já é tempo de mudar!

Ana Castro Fernandes


O caminho para a saúde mental começa pelo fim da estigmatização e discriminação. Como pode ver através das personagens que resultam de três narrativas construídas a partir de memórias da minha prática quotidiana, só assim a Luísa, o João e a Joana serão capazes de assumir com determinação os seus processos de mudança. Mas, para isso, é tempo de todos nós mudarmos. Ora leia.

Há três meses que Luísa sente uma tristeza profunda que a paralisa, bloqueia e anestesia. Não percebe a sua inércia, a incapacidade de sentir alegria, carinho pelos filhos ou interesse pelo trabalho. Enquanto lhe passava a baixa, o médico disse-lhe tratar-se de depressão – e ela pensou: “Vão pensar na empresa que sou preguiçosa, mais valia que tivesse um cancro!” Arrepende-se do que pensou e a culpabilidade invade-a.

João está no restaurante com o grupo de amigos. Habitualmente é o mais exuberante e alegre, mas hoje sente-se diferente e desconfortável. Observa o tecto do restaurante, que lhe parece estranhamente baixo e opressivo. Fica incomodado com o barulho da sala, que começa a percepcionar como demasiado cheia de pessoas. O ar parece rarear. Um amigo fala, mas ele não consegue focar a atenção. Esboça um sorriso para disfarçar. As suas mãos transpiram, o peito pesa, o ar não quer entrar no pulmão e o coração parece ter adquirido vida própria, batendo desgovernadamente. João está tremendamente assustado e os pensamentos atropelam-se: “Vou ter uma crise, tenho de me controlar! Eles não podem perceber, vão achar que sou louco!”

Joana contempla as três garrafas de vinho vazias que o filho lhe deixou em cima da secretária. Tem dificuldade em entender e admitir que foi ela sozinha que as bebeu. Ela é uma empresária bem-sucedida, “durona”, uma líder inquestionável que todos temem ou veneram. Joana sente o peso na cabeça e recorda as palavras do filho: “És uma alcoólica!” Acha que ripostou, argumentou; agora, sozinha, só sente vergonha, mas não sabe e nunca aprendeu a pedir ajuda.

Estas são três narrativas construídas a partir de memórias da minha prática quotidiana. Porque temos tanto medo de nos expormos quando se trata de problemas de saúde mental? Não é seguramente por se tratar de doenças raras, uma vez que, em média, uma em cada quatro pessoas vai, ao longo da sua vida, necessitar de apoio psiquiátrico ou psicológico. A verdade é que, em algumas culturas, a doença mental ainda está envolta em mitos e estereótipos – e, ao longo de séculos, aqueles que sofriam de doenças mentais eram encarcerados, encerrados em hospícios ou, de algum modo, ostracizados pela sociedade. Não deixa de ser estranho que, num tempo em que tanta informação circula de um modo generalizado e acessível, temos ainda dificuldade em nos libertarmos destes estereótipos. Um estudo actual em Inglaterra revelou que é mais fácil as pessoas exporem a sua orientação sexual do que assumirem que têm um problema de saúde mental.

O estigma que envolve o doente mental está estreitamente ligado à ignorância acerca da doença. As pessoas têm dificuldade em acreditar no que não é visível e o sofrimento psicológico é escondido, os sintomas não são óbvios nem facilmente compreendidos pelos outros. Muitas vezes percebemos que há muitos mitos e estereótipos à volta dos nossos doentes, que frequentemente são rotulados como menos produtivos, menos confiáveis. A habitual dificuldade em compreender, aceitar e assumir a diferença.

E os doentes, por que razão não combatem eles próprios este tabu? Numa sociedade que valoriza o sucesso dos vencedores, não é fácil admitir as nossas fragilidades e vulnerabilidades. O medo da discriminação, lamentavelmente ainda muito real, cala mesmo os mais audazes. Ao vermos a doença mental como um tabu estamos a contribuir para uma atitude de discriminação dos doentes mentais que acaba, frequentemente, por ser mais nociva que a própria patologia. O estigma e a discriminação existem e têm um impacto enorme no doente, contribuindo para desigualdades no acesso à saúde, na expectativa de vida, na empregabilidade, na vida profissional e na inserção familiar e social. É muito importante perceber que a doença mental é comum, que ninguém está imune e que há uma resposta médica e psicológica. É necessário procurar ajuda! Padecer de um problema psiquiátrico não é vergonha, não nos torna menos capazes e não nos impede de ter uma vida feliz, plena e com significado.

O caminho para a saúde mental começa pelo fim da estigmatização e discriminação. Só deste modo a Luísa, o João e a Joana serão capazes de assumir com determinação os seus processos de mudança. Mas, para isso, é tempo de todos nós mudarmos.

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