Opinião

São vs. Pedro

Aline Hall de Beuvink


Pedro Abrunhosa (PA) ficou conhecido com o seu álbum de estreia, “Viagens”. A música portuguesa nunca mais foi a mesma. Ele próprio disse várias vezes que não cantava, interpretava. Nunca achei que a sua voz fosse para cantar; porém, o valor das suas músicas é indiscutível. Também o é a consciência que tem da sua voz enquanto activista. Aqui, ela não desafina. Como noutros momentos, utilizou o palco para dar voz ao que ele considera serem injustiças: foi assim com Cavaco Silva, Rui Rio, a troika, agora Putin. A embaixada da Rússia, habituada a um regime em que a liberdade de expressão e a democracia não têm lugar, coagiu PA. O nosso ministério esteve bem e defendeu-o. A liberdade como um valor inalienável no nosso país. De repente, a actriz São José Lapa, que já ninguém se lembrava que existia, escreve: “A minha voz NÃO é a tua voz, Pedro Abrunhosa. Aliás, tu NUNCA tiveste voz...” De facto, para cantar, nunca teve grande voz. Mas, para combater, ela foi poderosa. Muitos atribuíram a PA a machadada da queda do cavaquismo. Nem ele disse que falava em nome de todos os artistas, mas penso que todos aqueles que defendem a democracia se reviram, de alguma forma, no seu acto. Se a actriz quis que se voltasse a falar nela, conseguiu-o. Pelas piores razões. E é uma pena que uma mulher de talento se veja envolvida num episódio triste nesta fase da vida. Pode ser que o PCP a convide a dizer uns textos revolucionários na Festa do Avante!. Ou que Putin lhe mande uma medalhinha. É até confrangedor como as suas palavras deixam entrever um tom de insulto pessoal. As estrelas nunca deveriam envelhecer. Algumas ficam amargas com o tempo.

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