Opinião

Rúben Amorim: o tempo certo

Filipa Santos Lopes


Existe uma fotografia. A tecnologia apagou-a, tornou-a invisível aos olhos, mas eu lembro-me como se fosse ontem. Se calhar, foi mesmo.

Nela, um miúdo de 19 anos com uma cruz de Cristo ao peito e um chupa na boca rasga um sorriso, o pequeno pau branco de plástico a espreitar – e, a seu lado, estou eu. Na minha cara de menina vê-se estampada a ansiedade de quem sonha. “Rúben, podes dar-me um autógrafo?”

Então, o Restelo recebia o futebol que merece. Repetia-se com antecipação um novo nome. Neste lugar que é o futuro, sabemos que as expectativas não foram cumpridas, tão-pouco goradas. Rúben Amorim chegou ao topo e nele se manteve, embora, como futebolista, poucos o guardem. Eu, sim – e isso ajuda-me a entender o sucesso actual, até a esperá-lo.

Inteligente em campo, faltava-lhe talento para o mostrar. Desde o banco, rejuvenescedor, pensa o processo como sempre; a diferença é que, agora, outros o executam. Traz consigo inteligência emocional e táctica, a palavra como arma. Conhece necessidades, erros, acertos. Sabe, mais do que qualquer outra coisa, que os atletas precisam de quem neles acredite. E é por isso que o seu sucesso é transversal a geografias, orçamentos e expectativas. Amorim crê, cegamente. E nele todos crêem também.

Em 2005, com a ilusão de quem começa, é provável que esperasse grandes conquistas. Está a consegui-las apenas no tempo certo, muito depois, porque a vida acontece a ritmos estranhos. Ainda bem. Esta é uma narrativa de esperança. Para Rúben Amorim, há mais por vir.

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