Opinião

Relativismo

Adalberto Campos Fernandes


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Os tempos actuais estão marcados pela celeridade dos acontecimentos e pela ausência de tempo para reflectir sobre a sua importância. Os factos perdem interesse e a sua valoração varia em função da conveniência de quem os interpreta. A pulverização dos instrumentos de comunicação generalizou a ideia de que tudo é relativo, aceitável, compreensível ou, até certo ponto, inevitável. A realidade é cada vez mais construída a partir de percepções, deixando para segundo plano a substância dos factos que a determinam. O pensamento colectivo organiza-se, sobretudo, a partir do momento. O juízo comum está cada vez mais condicionado pelo efeito tóxico da realidade construída ou dissimulada.

A pandemia pôs à prova a qualidade da informação disponível através de uma massificação, sem precedentes, da partilha de dados, da difusão de ideias ou de meras opiniões sobre este evento global. Ao longo do último ano e meio assistimos a uma permanente disputa entre a incerteza natural da ciência e do conhecimento e o protagonismo crescente da ignorância. É o tempo das notícias falsas, da negação da verdade, da alienação da realidade e até mesmo da rejeição da evidência que nos chega através da ciência. Assistimos a diferentes fases na evolução deste processo. Desde as primeiras vagas de especulação sobre a natureza e a origem do vírus até à relevância dos seus efeitos patogénicos, passando, mais recentemente, pela desvalorização do benefício das vacinas na prevenção da doença - neste último caso, recorrendo mesmo a mecanismos organizados de contra-informação com o objectivo de descredibilizar todo o processo.

Vivemos, sem dúvida, tempos desconcertantes. A informação, a notícia, os factos e a verdade deixaram de ser valores de referência para se transformarem em instrumentos de alienação, de combate ideológico e de manipulação política. Tornou-se mais difícil salvaguardar os princípios da ética social e do respeito pelo indivíduo, pelos seus direitos e pela sua segurança. O relativismo tomou conta das nossas vidas, tornando difusos os limites da verdade. Os efeitos colaterais deste processo atingiram igualmente a política. São cada vez mais frequentes os exemplos, um pouco por toda a parte. O populismo afirma-se como o exemplo extremo dessa prática. O que importa não é tanto o que é dito, mas sim a forma como é proclamado. Estamos imersos num clima de desconfiança e cercados de polígrafos. O jogo político mudou as regras da conquista e da conservação do poder em democracia. A “política tradicional” que aspirava a transformar a realidade colectiva tem vindo a ser progressivamente substituída pela “nova política”, fria e pragmática, cujo elemento distintivo mais relevante é a tentação compulsiva de adulterar a realidade, sempre que necessário. Infelizmente, este tipo de exercício garante resultados no curto prazo, mas acaba sempre consumido pela erosão da confiança. E esta é, em boa verdade, a razão de ser de qualquer relação sólida e perdurável.

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