Opinião

Reforma activa

Tiago Mendonça


O plano de vida da esmagadora maioria das pessoas é dividido, em geral, em quatro grandes momentos. A primeira década e meia, correspondente à infância e à pré-adolescência, marcada por uma total dependência dos progenitores. Depois, um período, hoje cada vez mais longo, ainda sem emancipação, mas que corresponde à preparação académica e entrada no mercado de trabalho – outra década e meia. O pressuposto filet mignon da coisa, entre os 30 e os 65 – a fase adulta. E, finalmente, a reforma, aos 65 anos, que deve durar o máximo possível. Existem depois algumas oscilações (emancipação mais precoce, esquemas de reforma antecipada, etc.) mas, no essencial, é isto. Poucas pessoas conseguem aos 40 ou 45 anos ter amealhado o dinheiro suficiente para que o trabalho não seja uma necessidade, mas um hobby.

Qual é a estranheza? É que estamos dispostos a tudo, tudo, tudo naquele período longo da fase adulta. A viver em sítios de que não gostamos (quase sempre escolhidos em função da distância para o local de trabalho), com horários que não se adaptam às nossas características, desperdiçando longas horas em filas de trânsito, enfim, mais infelizmente, trabalhando em coisas cujo único proveito é a componente financeira. Em nome, para os que lá chegarem, de uma reforma mais ou menos dourada (muitas vezes, menos...) após os 65 anos. Aí, imaginamos a casa na praia e os mergulhos ao final do dia, vendo um maravilhoso pôr-do-sol ou, como se diz hoje, um sunset, provavelmente sentados numa cadeira mais confortável, porque as cruzes são um problema. Ou, então, uma casinha no campo, onde bebemos um copo de vinho, lemos um bom livro e ouvimos o crepitar da madeira na lareira durante o Inverno e, no Verão, fazemos caminhadas na montanha ou bebemos um daiquiri com os pés dentro da piscina.

O plano é bom, o problema é que não sabemos se isso vai acontecer. Ou, acontecendo, em que condições. Não vale a pena entrar em ilusões de reformas aos 45 anos porque sabemos que poucas pessoas vão ter essa possibilidade. Mas fará sentido o adiamento da felicidade para um momento tardio e não garantido da nossa experiência vivencial? Será este mais um caso em que a resposta que dão à minha inquietação é, uma vez mais, o fatal “tem de ser assim”?

Da mesma forma que não propugno o denominado work-life balance que, já agora, chega com 20 anos de atraso ao nosso país – a excitação em torno das semanas de quatro dias ou de quatro dias e meio fica entre o comovente e o cândido –, mas um work-life blend (em que misturamos vida pessoal e profissional em doses e momentos que nos parecem apropriados), também não consigo conceber uma separação estrita entre vida activa e reforma.

Sobre o work-life blend, embora tenha dias sempre muito diferentes, a verdade é que concentro mais horas de trabalho ao início e ao fim do dia. E tenho uma mancha mais livre a meio, com horas de almoço generosas. Não me importo de acabar a jornada um pouco mais tarde que o “normal” desde que também a comece um pouco mais tarde que o normal. Mas isso é com cada um. Cada qual tem as suas especificidades e o que faz sentido é, dentro do possível, adaptar as várias necessidades e objectivos da vida num horário partilhado – entre trabalho e lazer.

A minha proposta é precisamente a da reforma activa. Procurar ter muitos momentos que imaginamos na reforma enquanto tenho de trabalhar. Hoje vivo numa casa onde tenho uma pequena horta e uma pequena piscina (quase...), a lareira, uma mesa de matraquilhos e, sobretudo, estou literalmente a cinco minutos a pé de fazer uma grande trilha pela montanha. Posso sentar-me ao fim da tarde a beber um gin – na verdade, já numa cadeira confortável porque as cruzes dão de si mais cedo... – ou posso ler o tal livro enquanto beberico um vinho local. Ao mesmo tempo que tenho uma vida profissional agitada, com muitas horas de dedicação por dia e um projecto que depende só de mim. Costumo dizer que tenho zero dias de férias por ano, mas também não tenho nenhum dia em que não me sinta, em algum momento, de férias. Não percebo a paranóia de não se poder responder a uns emails entre um mergulho e a picanha fatiada durante as férias no Rio de Janeiro, da mesma forma que faz sentido dormir uma sesta “num dia de trabalho” ou fazer uma longa caminhada de manhã e trabalhar à tarde. No final, o que interessa é se nos sentimos felizes. Se foi um dia bem passado, claro, equilibrando todas as nossas necessidades e obrigações assumidas.

Os motivos de felicidade são diferentes para cada pessoa. Admito que alguns prefiram a agitação da cidade, as noites épicas na discoteca da moda, irem duas vezes ao cinema por semana. Está tudo certo. Não existe nenhum guião que nos diga o que devemos fazer. Cada um é que sabe o que o deixa feliz. O que me parece inaceitável é que se aceite como moeda de troca para alguns anos (esperemos que muitos) de momentos aprazíveis uma espécie de escravidão dos tempos modernos em que se vive, literalmente, para trabalhar. Na verdade, não são apenas as longas horas de trabalho que preocupam. São as longas horas nos dias e horas em que outros definem que temos de trabalhar. É viver num sítio perto de onde a pessoa que nos emprega decidiu montar o seu negócio. É ter de perder horas de vida no trânsito porque todas as pessoas trabalham às mesmas horas. É uma vida focada no trabalho. Num único aspecto da nossa vida. Penso que é curto. Muito curto.

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