Opinião

Quo vadis, António?

Filipe Pinhal


O primeiro-ministro e o secretário-geral do PS não se cansam de falar na geração mais qualificada de sempre, aproveitando para prometer condições que fixem no país os licenciados e doutorados. A isto chama-se aliciar.

Posta a questão nestes termos, só podemos concordar com a pessoa que se apresenta com gravata na Assembleia da República e sem gravata nas campanhas eleitorais e nos eventos do partido, onde fala abundantemente sobre o tema.

Mas o dr. António Costa tem um problema bicudo para resolver: como libertar-se das teias em que se enredou quando deixou que o PS alinhasse na cruzada do PCP e do BE contra os ordenados milionários? Como quem ventos semeia colhe tempestades, a onda foi aproveitada pelos patrões – incluindo o Estado – para se libertarem dos quadros mais caros, mas também os mais qualificados, que foram sendo substituídos por jovens que não podem aspirar a mais do que remunerações que pouco excedem o salário mínimo nacional... e em contrato a prazo.

A consequência da cruzada que uniu a esquerda foi a redução do salário médio e a convergência deste para a linha do ordenado mínimo nacional, fazendo com que Portugal se aproxime, em 2021, da Albânia de Enver Hoxha dos anos 70 do século passado: o país mais igualitário, mas o mais pobre da Europa.

Mas António Costa fez pior. Ao ceder às exigências dos seus parceiros à esquerda, mais do que empobrecer a classe média, fê-la desaparecer! Menores rendimentos e mais impostos só podem ter como resultado o alastramento da miséria que engoliu boa parte da dita classe.

É certo que o Governo pouco pode fazer contra as opções das empresas privadas, mas poderia ter evitado os sinais que alimentaram a demagogia. Ao pretender estabilizar a massa salarial da função pública, satisfazendo ao mesmo tempo as exigências dos sindicatos da função pública, o Governo não teve outro remédio senão eliminar os salários mais elevados, com isso dando gás a uma onda populista que já estava a empurrar para o estrangeiro aqueles que não conseguem encontrar no seu país remunerações justas e estabilidade de emprego.

O primeiro-ministro pode aproveitar a visita a Berlim para saber quais as condições que o seu governo pode oferecer à geração mais qualificada de sempre: bastará perguntar à sra. Merkel. Mas isso só depois de se inteirar de três coisas básicas:

1. Qual o salário mínimo nacional, o salário médio e o PIB per capita na Alemanha, e como se comparam com Portugal;

2. Qual a remuneração a que pode aspirar um jovem médico, engenheiro ou advogado em início de carreira na Alemanha;

3. Qual a relação entre o custo de vida na Alemanha e em Portugal.

Enquanto não tiver consciência do oceano que separa dois dos mais antigos membros da UE, arrisca-se a continuar a servir de muleta ao PCP, que precisa que haja fome para captar as adesões que poderão retardar a sua extinção.

Entretanto, será bom que o primeiro-ministro informe a geração mais qualificada de sempre se o rumo que escolheu para Portugal é a Alemanha de 2021 ou a Albânia de 1970.

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