Opinião

Prioridades

André Pardal


O País assistiu, no passado Sábado, a uma massiva participação num ato eleitoral, tendo sido batido (mais um) recorde absoluto de participação (40.085 votantes), demonstrando que os portugueses (ao contrário do que fatalmente é apregoado) se conseguem motivar, participar e mobilizar por causas e projetos, independentemente da sua idade, condição social, sexo ou preferências de várias índoles.

Essa enorme mobilização aconteceu nas eleições de um clube desportivo, que – por sinal - não nutre a minha preferência, mas que deverá ser unanimemente considerado um dos grandes clubes nacionais e mundiais.

Ao invés, a participação nos atos eleitorais “políticos” tem, assustadoramente, baixado nos últimos anos, como se pode comprovar pelas recentes eleições autárquicas (46% de abstenção, em comparação com os 26% das mais concorridas...em 1979) ou mesmo legislativas (51,4% de abstenção, em 2019, em contraponto com os 8,5% em 1975).

Mas então porque é que essa participação dos portugueses não se verifica também em eleições autárquicas, legislativas, presidenciais ou europeias? Eleições essas que afetam – diária e diretamente - a vida de todos nós?

Por um conjunto de fatores que nos deverá fazer pensar enquanto sociedade.

Em primeiro lugar, o papel dos órgãos de comunicação social na difusão e segmentação das respetivas mensagens. As responsabilidades e “tempo de antena” que o “quarto poder” atribui aos fenómenos desportivos, particularmente os relacionados com o desporto-rei e os três grandes nacionais – com um aumento exponencial nos últimos anos – são reveladoras disso mesmo, em paralelo com a degradação da atenção dada à dimensão do governo da “polis”.

Por outro lado, a proximidade entre desportistas, adeptos e dirigentes dos clubes, a sua capacidade de mobilização, e paixão existentes, em contraponto com o distanciamento, frieza e desresponsabilização presentes na dimensão política.

E, por fim, a cultura de exigência, sindicada semanalmente, pelo melhor juiz – o povo, independentemente da sua classe social ou económica – nas bancadas de estádios ou pavilhões, em contraponto com a das promessas não cumpridas, da mentira, e da irresponsabilização (como se pode observar com o inefável ainda Ministro Cabrita) da classe política.

Ao contrário do fatalismo tão presente no nosso dia-a-dia, fica assim comprovado que os portugueses participam quando suficientemente mobilizados por causas ou ideais, mais ou menos apaixonados, estando sim afastados da participação política (mais os políticos é que estão afastados dos portugueses).

Diferentemente da geração de eleitores do pós-25 de abril de 74, ansiosa por participar em tudo, tendo em conta as limitações que viveu em grande parte da sua vida, esta que é a geração mais qualificada de sempre participa quando tem de participar e quando se revê nas causas, mas, principalmente, nas pessoas que as corporizam.

Apresentem-lhes os melhores, os mais bem preparados e nos quais se revejam - pessoas normais, como Carlos Moedas em Lisboa tão bem demonstrou – e os índices de participação eleitoral aumentarão exponencialmente.

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