Opinião

“Primeiro levaram os negros”

André Pardal


Uma semana após o “choque” com o desfecho das eleições italianas, do outro lado do Atlântico, no nosso país-irmão e na primeira volta das presidenciais, surpreendendo sondagens e os habituais tudólogos do comentário daqui e d’além-mar, mais de 91% dos votantes (cerca de 108 milhões) optaram por Lula ou Bolsonaro.

Quando, fruto de uma bipolarização nos extremos (e não ao centro), candidatos moderados, como Simone Tebet, apoiada pelos partidos fundadores do regime, PSDB, de Fernando Henrique Cardoso, que pela primeira vez em 28 anos perde no estado de São Paulo, e MDB, de Tancredo Neves e Michel Temer, ou Ciro Gomes, apenas granjearam o apoio de uns residuais 4% ou 3%, respectivamente, algo vai muito mal.

Num país com tão forte, e histórica, ligação ao nosso, onde residem e trabalham mais de 300 mil cidadãos brasileiros, dos quais mais de 80 mil cá exerceram o seu direito de voto, o resultado destas eleições nunca poderá ser desvalorizado.

Especificidades próprias da América Latina à parte, com o seu fascínio por históricos caudilhismos, enormes desigualdades sociais e uma pobreza gritante e incompreensível, dadas as suas riquezas naturais, a polarização extremada entre duas faces da mesma moeda expõe verdadeiros riscos para a democracia que só os moderados poderão combater. Não com a mesma receita populista mas, lá como cá, com soluções concretas para a vida das pessoas, em particular as mais frágeis.

Por um lado, o Brasil do centro-oeste, sueste e sul, maioritariamente branco, com nível de vida mais elevado, votou massivamente em Bolsonaro, um Presidente-candidato boçal, impreparado e que envergonhou o seu país por diversas vezes nestes quatro anos. Por outro, o Brasil sempre esquecido do norte e do nordeste depositou a sua confiança num Lula “paz e amor” que, esquecendo a ética republicana (só aplicável aos outros) da renovação da classe política e após uma novela judicial que o enlameou, e ao país, tenta voltar ao Palácio do Planalto a todo o custo.

Claro está que a opinião pública (ou será publicada?) nacional, sempre demasiado inclinada, já há muito havia vaticinado uma estrondosa vitória, à primeira volta, para Lula. Contudo, perante este cenário, enquanto democrata, e outra vez lá como cá, apenas me choco com as “trincheiras cegas” que alguns tomam.

Quanto à segunda volta, se nos infalíveis e insuspeitos Estados Unidos da América assistimos ao que assistimos há tão pouco tempo, resta esperar que o bom senso, que tanto tem faltado, prevaleça, fundamentalmente para quem não saia vencedor do veredicto popular.

Por fim, para quem entenda que a realidade brasileira (ou italiana) é deveras distante da nossa, ao achar que a mera táctica política para ascender ou permanecer – a todo o custo – no poder deverá sobrepor-se à estratégia e, fundamentalmente, aos princípios, nada melhor do que o poema do insuspeito dramaturgo alemão Bertolt Brecht para nos fazer, mais do que pensar, agir, antes que seja tarde.