Opinião

Portugueses do século XXII já se encontram entre nós

Leonardo Ralha


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Sosseguem os mais inquietos, pois o título não se refere a uma invasão de viajantes no tempo com intuitos insondáveis. Sem ficção científica, basta consultar dados sobre a esperança média de vida dos portugueses para constatar que os recém-nascidos dos últimos meses têm a legítima expectativa - embora disso não tenham qualquer noção - de estarem vivos na madrugada de sábado que marca o início do século XXII. Estima-se que estejam de boa saúde, rodeados pelos seus, à chegada desse 1 de Janeiro de 2101.

A experiência estará mais assegurada para mulheres do que para homens, a manter-se a tendência para a maior longevidade feminina. Afinal, em 2020, as portuguesas tinham uma esperança média de vida de 83,4 anos, contra 77,7 anos dos portugueses. Mas é verdade que ambos os valores avançaram 17 anos desde 1960 e que os constantes avanços nos cuidados médicos e condições de vida poderão ajudar a que, dentro de outros 60 anos, todos (ou quase todos) possam aspirar a ser centenários.

A nós, mais velhos, muito provavelmente vivos somente na memória de alguns aquando da chegada do próximo século - daqui a tanto tempo que a meta decerto ultrapassa as nossas existências -, resta desejar o melhor para o José Pedro, o Gonçalo, o Wilson, a Maria, a Kelly e a Irina, portugueses que ainda testemunharão o século XXII e antes viverão tudo o que falta cumprir do século em que coincidimos. Mais do que isso, a nós, mais velhos, cabe tomar decisões que possam guiar a mais recente das novas gerações num caminho de liberdade, prosperidade e felicidade.

Podemos contribuir a nível individual, tudo fazendo para proporcionar as melhores oportunidades aos nossos filhos, netos, sobrinhos ou afilhados, aguçando a curiosidade e o amor pelo conhecimento. Mas não podemos descurar que as políticas públicas seguidas pelos governos que ajudamos a pôr no poder devem acautelar o futuro ao mesmo tempo que respondem ao presente. Algo que em Portugal nem sempre tem sido regra, mantendo-se uma espécie de resistência passiva ao desenvolvimento que impede que este seja mais do que um dos países do pelotão da frente. E fazem com que esteja sempre a ver outros países, saídos há poucas décadas de regimes autoritários e castradores, ultrapassarem-no sem hesitação e ganharem terreno até desaparecerem de vista.

É possível que o Gonçalo, o José Pedro, o Wilson, a Maria, a Kelly e a Irina, por vezes filhos de imigrantes, venham a tornar-se emigrantes, como tantos compatriotas antes deles. Nada contra, estando por provar que o sentimento de pertença a uma nacionalidade não se esbata no futuro que irão viver. Mas é preferível que o façam por escolha própria, e não por correrem atrás de oportunidades inexistentes em Portugal.

Há que assegurar que o país merecerá estes portugueses do século XXII. Mas os mais afortunados ainda terão por perto quem se lembre de nós quando éramos recém-nascidos, com fraldas e de chupeta na boca. Não há tempo a perder.

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