Opinião

Portugal, um país mal gerido mas, certamente, nunca aborrecido: uma epopeia à portuguesa

Cláudia Nunes


Dedicado aos portugueses, que vivem num país mal gerido e, ainda assim, não desistem de dar o seu melhor, contra ventos e marés, e sobretudo contra a visão dos seus intervenientes políticos.

A vida em Portugal não tem sido abastada – pelo menos, para o cidadão comum. Não incluo neste grupo, evidentemente, o sr. deputado Eurico Brilhante Dias, que nos deixa sempre encantados com o estado de graça do seu Portugal aquando de mais uma das suas intervenções. E passo a citar, nas suas palavras, que Portugal é “um país de esperança, com crescimento económico e pouco desemprego”.

Se não fosse normal, preocupar-me-ia o facto de um deputado e líder parlamentar não estar familiarizado com o facto de, em termos reais, o PIB ter crescido cerca de 1,5% entre o início de 2020 e o segundo trimestre de 2022 – o que significa que nos encontramos aproximadamente no mesmo ponto em que estávamos antes da pandemia. Não estamos a crescer realmente, como é publicitado: mantemos a estagnação.

Na epopeia à portuguesa há riqueza e invocação da divindade que se espera resolva todos os males (que, como sabemos, não existem!): o PRR e o nosso virtuoso herói, com capa de primeiro-ministro, irão salvar o povo distribuindo os fundos europeus por todos aqueles que se viram lesados pelas suas políticas de salvação nacional durante a pandemia. Mas... há um problema (não, não há problemas! É um pormenor): 90% dos beneficiários dos pagamentos do PRR têm sido... o Estado. Mas não faz mal. O Estado certamente irá fazer coisas óptimas com estes fundos europeus, por exemplo, na saúde.

Aliás, com tantos impostos e tanta receita, não haverá necessidade de haver fecho de urgências por falta de médicos. O SNS, como sabemos, oferece todas as condições para a retenção de jovens médicos. E se houver (dificilmente) alguma tropelia imprevista com o SNS, não deve ser objecto de preocupação maior: o herói da epopeia à portuguesa e os seus soldados abrem um portal online, muito eficiente, onde podemos saber a que urgências nos devemos dirigir. Desta feita, em caso de urgência, nunca se esqueçam: visitem o portalzito. Um verdadeiro exemplo de que até o caos pode ser organizado. Está tudo no portalzito, por ordem alfabética e tudo.

Não fosse o problema ser estrutural, e a única solução possível para resolver um problema desta natureza seja reconstruir a sua estrutura, não haveria imprevistos. O grande inconveniente dessa hipotética correcção é que isso seria admitir a falha ideológica e, disso, que Deus nos livre. O SNS funcionará – sem médicos, sem urgências e até sem pacientes.

Na epopeia à portuguesa não desconfiamos da Presidência da República, onde também o seu representante maior é conivente com toda esta alegria e sucesso que é o governo português. Desde as retaliações a empresas privadas de energia que geram anticorpos ao Governo, passando pela dificuldade em explicar o estado a que o Estado chegou, Marcelo e Costa são um exemplo de união no que diz respeito à estabilidade necessária para levar um país a bom porto: não contestar, não escrutinar.

Na epopeia à portuguesa vamos indo num navio sem capitão ao leme. Falando em mobilidade, valha-nos ainda podermos andar de avião... pelo menos, até ao ano que vem, em que já fomos avisados que o aeroporto de Lisboa terá de começar a recusar voos por falta de capacidade. Não compreendo a vossa indignação. Além de estarmos a ser avisados com tempo de antecedência, podemos contar com António Costa, Pedro Nuno Santos, Carlos Moedas, Luís Montenegro, especialistas, activistas, e todos eles irão sem dúvida, após várias cimeiras, dar fim a este assunto com 50 anos – nem que demorem outros 50.

Portugal, um país mal gerido mas, certamente, nunca aborrecido.

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