Opinião

Porque hoje é sábado

Leonardo Ralha


Está lá tudo muito bem explicado no poema “Dia da Criação”, do mestre brasileiro Vinicius de Moraes: “Hoje é sábado, amanhã é domingo/ A vida vem em ondas, como o mar/ Os bondes andam em cima dos trilhos/ E nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar”

A demonstrar que a vida vem mesmo em ondas, o NOVO passa, a partir de hoje, a chegar aos seus leitores ao sábado, a que o poeta chamava “o dia do presente”. É apenas uma das mudanças que começam nesta edição, feita por uma equipa reforçada e tirando partido das sinergias que são possibilitadas pela integração deste semanário num grupo editorial com meios e ambições alargados.

Neste dia da criação da nova fase do projecto jornalístico chamado NOVO, porque hoje é sábado e amanhã é domingo, torna-se imperativo ter bem presente aquilo que deve ser conservado do percurso realizado desde a primeira edição, sem receio de manter e potenciar o que de melhor o NOVO ofereceu até agora – a começar pelo amor às notícias e pela coragem de fazer perguntas inconvenientes e procurar respostas não raras vezes tiradas a ferros. Por outro lado, há que ter a abertura para alterar o que carece ser mudado para assegurar a construção de uma comunidade e a garantia de fontes de receita que façam deste um projecto sustentável para os accionistas e com capacidade de garantir boas condições de trabalho à sua equipa, a bem da qualidade do que é feito para os seus leitores, na edição impressa e no online.

Como nos versos de “Dia da Criação”, haverá lugar para “um piquenique de políticos” nestas páginas, tal como, no sentido mais figurado possível, para a “mulher que vira homem” e para as “criancinhas que não comem”, para não falar no “grande acréscimo de sífilis”, na “tensão inusitada”, no “garden party na cadeia” e na “impassível lua cheia” que vão sendo ditados pela actualidade e pela inquietação jornalística de quem faz o NOVO.

Na edição de um jornal há muitas portas e a missão de quem dedica a vida a fazê-los deve ser, acima de tudo, procurar que o leitor tenha vontade de entrar em todas as divisões depois de espreitar pelas respectivas janelas. Revelando-lhe posições contraditórias e não raras vezes antagónicas quanto aos assuntos que marcam a actualidade. Sem preconceitos e com vontade de conhecer o leque mais alargado possível de opiniões, na certeza de que esse é o mais perfeito antídoto contra o pensamento único.

Retomando Vinicius de Moraes, “e dando os trâmites por findos, há a perspectiva do domingo”. Mas antes e depois disso há muito para ler, nesta e nas próximas edições. Porque hoje é sábado.

P.S. – No fecho da edição chega a notícia da morte do apresentador e humorista brasileiro Jô Soares. Tinha 84 anos, é conhecido pelas novas gerações sobretudo devido às suas entrevistas, mas nos anos 80 do século passado destacou-se pela bofetada de luva branca que desferiu na ditadura militar. “Viva o Gordo, abaixo o Regime” foi uma mostra de coragem notável.

PUB