Opinião

Percepção e política

Adalberto Campos Fernandes


TÓPICOS

A política depende sempre dos resultados. Os resultados representam, no essencial, o fecho dos compromissos assumidos. Ninguém duvida da complexidade da governação de um país ou de uma qualquer área sectorial específica. Trata-se de um trabalho que exige competência, resistência, mas também sentido de missão. O exercício de funções políticas requer disponibilidade para negociar, estabelecer consensos e abrir caminhos sem perder de vista o sentido de responsabilidade perante o país, no seu conjunto, e a generalidade dos cidadãos. A política tem como propósito servir o interesse público e o bem comum. Ora, este propósito implica a gestão de conflitos, a assunção de diferenças de opinião, a fundamentação das escolhas e, muitas vezes, o confronto com a adversidade. O exercício político sério enfrenta, muitas vezes, a contestação, o confronto e a manipulação. A qualidade das políticas depende, sempre, da qualidade das escolhas. O preço a pagar é sempre mais alto quando se atrasam as melhores soluções na busca de uma “tranquilidade” conjuntural que troca a ambição de mudar pela quietude dos males menores.

A instabilidade das sociedades modernas e das relações entre os Estados, a par da crescente incerteza face ao futuro, torna cada vez mais difícil a previsão na política. Não vivemos mais numa sociedade baseada na previsibilidade, nas tendências constantes e bem definidas. O contexto global tornou-se mais contingente e problemático, obrigando os países a estratégias mais defensivas e prudenciais. Por tudo isto, temos motivos sérios de preocupação quando atrasamos as mudanças necessárias. Sobretudo as mudanças nos sistemas de saúde e de protecção social, de cuja sustentabilidade depende a vida de milhões de pessoas, em particular daqueles que vivem em situações de grande vulnerabilidade.

A dependência, em cada momento, da simpatia e do aplauso introduziu na acção política uma espécie de conta-corrente com a popularidade. Esta dependência torna mais difícil fazer o que importa para projectar o futuro, em prol do mais fácil, do menos útil e do menos eficaz. A governação de um país é uma infindável maratona em que a passagem do testemunho impõe que, no final de cada ciclo, o legado seja de melhoria e de evolução. A nossa história democrática está repleta de exemplos de homens e mulheres competentes, corajosos e capazes que não tiveram medo. É isso que faz o país progredir, tornando melhores as condições de vida das pessoas. Apenas desta forma a política faz sentido. Ao invés de preencher os espaços, de ceder às rotinas, de fraquejar diante da resistência das “partes interessadas”, é preciso romper, arriscar e fazer diferente para resolver os problemas. O preço a pagar pelo imobilismo que não compromete será demasiado elevado. Perante uma frente fria de cepticismo que nos chega da Europa, estamos, de novo, a temer pelo futuro. E, uma vez mais, a lamentar não sermos mais audazes. No momento presente, o risco aí está, bem à vista, na economia. Infelizmente, o ressurgimento deste risco poderá (mais uma vez) inviabilizar o relançamento da saúde. Vamos ver se não teremos perdido demasiado tempo e se, por essa razão, não chegaremos tarde demais.