Opinião

Pátria

Bernardo Theotónio-Pereira


Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de mora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsistência como que um lampejo misterioso da alma nacional;

Uma burguesia cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminado já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas;

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país;

Partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar uma gota de sangue, vivendo do mesmo utilitarismo céptico e pervertido;

Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante - o direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto à mercê dum compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer à influência tirânica e degradante de qualquer dos bandos partidários;

Uma geração nova das escolas, entusiasta, irreverente, revolucionária, destinada, porém, como as anterior (...) dela restando apenas, isolados, meia dúzia de homens inflexões e direitos, indemnes à podridão contagiosa pela vacina orgânica dum carácter moral excepcionalíssimo.

A advogalhada de S.Bento, todo esse mundo de vista baixa, moralmente ordinário e intelectualmente reles, ia agora liquidar numa infecta débâcle de casa de penhores num Alcácer-Quibir esfarrapado, de feira da ladra (...)

O português, apático e fatalista (...) é de raça, é de natureza. Foi sempre o mesmo. A história pátria resume-se quase numa série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas.

Sei muito bem que o estadista não é o santo, que o grande político não é o mártir, mas sei também que toda a obra governativa, que não for uma obra filosófica humana, resultará em geringonça anedótica, manequim inerte, sem olhar e sem fala.

A revolução urgente não era social, nem política, era moral.

Sem o Banco de Portugal ficaríamos pobres 30 anos. Mas sem os Lusíadas ficaríamos pobres para sempre.

Há, além disso, bem no fundo deste povo, um pecúlio enorme de inteligência e de resistência, de sobriedade e de bondade, tesoiro precisão, oculto há séculos em mina entulhada.

A grande missão de governo em Portugal passa por fazer dos Portugueses um só espírito, juntar todas as vontades numa só vontade.”

Esperemos que tudo não continue a aparentar que muda para, depois, continuar tudo na mesma.

Muito obrigado, Guerra Junqueiro.(vide “ Pátria”, 1896)

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