Opinião

Para fora da bolha

Amish Laxmidas


“Notícia de última hora: Carlos Moedas eleito presidente da Câmara Municipal de Lisboa.” Se a noite de 26 de Setembro abre com esta nota, então os comentadores políticos ficarão sem chão. Apontam Carlos Moedas como alguém fora de Lisboa, sem conhecimento da cidade. Comentários que derivam daqueles mesmos que nos últimos 14 anos governam a cidade e percebem como a experiência internacional de Moedas supera a sua. Carlos Moedas é mais polido, arrojado e competente do que Fernando Medina. Lisboa precisa de uma alternativa à arrogância de um político medíocre e de uma governação estagnada.

Esta é uma eleição decisiva para a cidade de Lisboa. Nasci, cresci e vivi sempre em Lisboa. Português, de origem indiana, praticante do hinduísmo, educado num colégio católico e com uma profissão e empregos globais, Lisboa é para mim o equilíbrio perfeito entre a interculturalidade e a liberdade. Poucas são as cidades com a oferta cultural de Lisboa e que, ao mesmo tempo, possuem a beleza histórica que esta capital nos oferece.

O problema dos últimos seis anos reside no facto de Fernando Medina não gostar de Lisboa. Um político que foi subindo na hierarquia do seu partido, sem nunca se expor em demasia, até que, repentinamente e sem saber bem como, surge como o presidente da câmara em 2015. Aqueles que votarão em Medina não conseguem apontar a função política que ele exercia anteriormente a estar na câmara, desconhecendo qualquer ideia, visão ou teoria de ascensão social até Costa chegar a primeiro-ministro. Se Costa cair, Medina cai junto. Para mim, que todos os dias me sinto privilegiado por viver em Lisboa, isto não chega. Ambiciono muito mais para mim e para a minha geração.

A verdade é que se Moedas for eleito presidente da Câmara Municipal de Lisboa, esta será dirigida por um líder competente, empático e progressista. Moedas propõe-se ser mais reformista, inovador e disruptivo do que qualquer política pública ou visão de Lisboa ou do país a que o ex-vice-presidente de António Costa possa algum dia aspirar. A verdade é que enquanto Medina falhava na preparação da reabertura gradual da cidade, em Maio e Junho, Moedas e a sua equipa já haviam delineado, de forma clara e explícita, como irão focar-se na habitação, cultura, reforço do apoio aos mais vulneráveis e na criação de um novo dinamismo empresarial na cidade. Como demonstrou nestes últimos seis meses em que tem estado na rua, de facto percebendo as diversas tendências da cidade, Moedas apostará na proximidade e frescura de ideias. Acima de tudo, de governação.

Carlos Manuel Félix Moedas amealhou para estudar no Instituto Superior Técnico, numa altura em que não havia um Arco do Cego renovado; alugou quartos para habitar enquanto estudava, numa Lisboa que ainda não tinha as praças arranjadas, e suou para conseguir entrevistas de emprego em Paris, Boston e Londres, que lhe deram currículo, mundo e conhecimento de outras culturas, incluindo a minha. Essa sua vinda para Lisboa coincide com o tempo em que a geração dos meus pais crescia numa Lisboa a desbravar.

Sou da primeira geração que nasce em Lisboa e talvez sejamos todos nós a primeira geração que tem a possibilidade de votar num político decente para a capital em muito tempo. O que os comentadores políticos não vêem, ou não querem ver, é que Carlos Moedas terá um mandato destinado àquilo que pretende fazer e mudar, enquanto Medina terá um presidente de partido a comandar.

É de esperar que os comentadores desconheçam a ida de Moedas ao GAT (Grupo de Activistas em Tratamento) e ao seu check-point In-Mouraria, que é um serviço confidencial e gratuito de promoção do direito à saúde das pessoas que usam drogas, focado na redução de riscos e danos associados a estes consumos, com particular foco na infecção pelo VIH e pela hepatite C. É para estas pessoas, esquecidas pelos velhos tempos, que Carlos Moedas construiu uma equipa forte na área da saúde, da habitação, do urbanismo e até mesmo do bem-estar.

Durante meses contactou comerciantes locais, incluindo de zonas e freguesias tipicamente associadas a uma outra ideologia, como é o caso do Martim Moniz, onde pude ver a forma calorosa como muitos dos lojistas o receberam. Muitos desses lojistas são, tal como eu, de origem indiana e, tal como os meus avós e os meus pais, vieram para Lisboa depois do 25 de Abril. Vieram em busca de uma liberdade económica, intelectual e cultural que hoje se encontra estagnada na capital. O que não deixa de ser curioso quando depois se permitem preços de arrendamento mais elevados do que em cidades como Berlim ou Madrid.

Mas este texto está na bolha. Para ti que lês, fora da bolha, e que te sentes desligado deste texto ou de qualquer outro, aponta o seguinte. Dia 26 podes escolher entre um eterno número dois que foi presidente sem querer ou um líder empático e carismático que abandonou tudo para servir Lisboa, a nossa cidade.

Resta saber se estamos prontos ou não estamos prontos. Moedas diz que estamos prontos. Lisboa grita que está pronta. E tu?

PUB