Opinião

PAN: de projecto político sério a anedota

Cristina Rodrigues


O PAN apareceu no espectro político português como um partido com ideias novas, razão pela qual também, muitas vezes, não eram bem recebidas em certas franjas da sociedade, pois tinham um carácter disruptivo. Era um partido focado nas causas, especialmente na animal, e com o tempo foi-se tornando também um partido ambientalista. Era um projecto político centrado não nas personalidades que o compunham, mas sim no que se acreditava ser o caminho certo a percorrer para atingir o ideal de sociedade que correspondia à visão do PAN.

Infelizmente, o PAN, hoje em dia, é incapaz de marcar a agenda política, pelo menos com seriedade. O partido gira em volta da líder, que parece estar tão focada nos seus interesses pessoais que não percebe que está a atirar todo o trabalho que foi desenvolvido por um colectivo coeso e com boas intenções para a lama.

O PAN é a favor de um modelo de transição agrícola que obrigatoriamente implica o abandono de monoculturas, produções intensivas, uso de pesticidas, uso de plásticos, compra de animais (no caso, abelhas), utilização de mão-de-obra precária. No entanto, segundo o noticiado, a líder do partido, nas suas empresas agrícolas, cumpre todos os requisitos dessa checklist. Além disso, o PAN tem vindo a abraçar a bandeira da transparência e do combate à corrupção. No entanto, ao que parece, a líder do partido esqueceu-se de comunicar ao Tribunal Constitucional a imobiliária que comprou com o marido quando a isso estava obrigada; também vendeu a quota numa das empresas à sogra que, por sua vez, vendeu passados uns minutos ao filho, sendo aparentemente uma situação de negócio simulado. Inês de Sousa Real parece praticar o que diz o adágio popular “bem prega frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz”.

De todas estas acusações, não vi ainda clareza na resposta de Inês de Sousa Real, que se limita a dizer que este é um ataque concertado contra o partido por parte da CAP. Pergunto-me se também foi a CAP que entrou no sistema dos serviços do Registo Comercial e procedeu à cedência da sua quota para a sogra e, de seguida, para o marido.

Como se o cenário já não estivesse suficientemente mau, Inês de Sousa Real, nos debates, não conseguiu passar a mensagem do PAN, não conseguiu provar a necessidade da representação do partido e não se destacou em nenhum.

Na campanha na rua optou por me tecer críticas, alegando que “roubei” o mandato ao PAN. Ora, das duas uma (ou até ambas): há uma total ausência de estratégia ou o partido não tem propostas a apresentar ao país, já que a sua líder dedicou várias vezes o pouco tempo de antena que tem a falar de mim. O que não dá lugar para dúvidas é que Inês de Sousa Real, líder do partido, desconhece a forma como os deputados são eleitos e que o mandato é pessoal, e não do partido, como de resto decorre do nosso texto constitucional. E o legislador constitucional assim o quis, e com razão, porque a democracia precisa de pesos e medidas, e a única forma de tentar assegurar a liberdade dos eleitos pelo povo é assegurar que não estão demasiado dependentes dos partidos pelos quais são eleitos, porque o deputado deve estar ao serviço das pessoas, e não das máquinas partidárias.

Assim, depois do mau resultado nas autárquicas (a percentagem de voto rondou os 1% e manteve praticamente igual o resultado de 2017 em número total de votos) prevê-se o pior nestas legislativas. O PAN continua sem ter implementação no país. Aliás, no Porto mostraram imagens de pessoas que não conheciam a existência do partido e recorde-se que a líder parlamentar é não só eleita pelo Porto como também é deputada municipal. E se é assim no Porto, imagine-se na zona interior do país.

É também de estranhar (ou não) que esta seja uma campanha de uma pessoa só. O anterior líder, André Silva, nem vê-lo, o ainda deputado Nelson Silva pouco ou nada apareceu, a “caravana” de Inês de Sousa Real é basicamente composta por meia dúzia de pessoas, das quais algumas são funcionárias do partido.

Não sei se o PAN sobreviverá à liderança de Inês de Sousa Real. Resta saber se os filiados terão a coragem de tomar as rédeas do partido caso os maus resultados nestas legislativas se confirmem, pois já vimos que a líder não terá nem a coragem nem a decência de ceder o seu lugar a alguém capaz. E também deixo já a nota, para que não haja dúvidas sobre a intenção de escrever este artigo, de que o PAN é um capítulo encerrado na minha vida.

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