Opinião

Os soldadinhos da inflação

Beatriz Gonçalves


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Cada vez mais, o termo inflação faz parte do léxico das famílias portuguesas. Na sua essência, a inflação ocorre quando há desequilíbrios entre a procura e a oferta, nomeadamente quando há um aumento da procura agregada de bens e serviços, mantendo-se a oferta agregada constante, ou quando se verifica uma diminuição da tal oferta, mantendo-se constante a procura, o que cria uma tensão nas estruturas produtivas e leva ao aumento generalizado nos preços de bens e serviços. Esse aumento continuado dos preços provoca a redução do valor do dinheiro e, consequentemente, do poder de compra, atacando directamente os bolsos das famílias.

Na última década, a inflação apresentou valores baixos, não representando um tema de conversa nem para as famílias e empresas nem para os governantes. No entanto, o ano de 2022 marcou o ponto de viragem: se, por um lado, actualmente conseguimos comprar menos gastando o mesmo ou até mais, por outro lado, soam as campainhas no Banco Central Europeu (BCE). Ora, contextualizando, o Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia define como principal objectivo do BCE a manutenção da estabilidade de preços na área do euro, o que é alcançado através da conservação da taxa de inflação para a área do euro num nível inferior, mas próximo, a 2 % no médio prazo. A ferramenta à disposição para controlo dos níveis de inflação é a política monetária definida pelo Eurosistema, ou seja, pelo conjunto formado pelo BCE e pelos bancos centrais nacionais dos países que integram a União Europeia e que adoptaram o euro. Existem vários instrumentos de política monetária, sendo as operações de cedência de liquidez a médio e longo prazo e os programas de compra de activos exemplos de instrumentos não convencionais, aos quais o BCE recorreu recentemente para estimular a economia. De facto, a utilização destes instrumentos ocorreu entre 2014 e meados deste ano, para fazer face aos riscos associados a um período prolongado de níveis baixos de inflação, destinando-se a incentivar o investimento e o consumo, tornando o recurso ao financiamento mais barato para os Estados, empresas e famílias.

Já o mecanismo de política monetária convencional consiste no controlo das taxas de juro, para o qual o Conselho do BCE define as taxas de juro oficiais do Eurosistema, ou seja, as taxas de juro a que o Eurosistema cede liquidez ao sistema bancário e absorve liquidez do sistema bancário. Essa alteração irá espoletar um processo dinâmico e com vários intervenientes, influenciando, por exemplo, as taxas de câmbio e as taxas de juro que os bancos comerciais cobram aos clientes quando lhes cedem empréstimos, o que afecta directamente o consumo privado e o investimento das empresas, e é aqui que começamos a entrar nos meandros do drama que vivemos. Se, por um lado, até há poucos meses, o BCE adoptava medidas para estimular o consumo, mantendo as taxas de juro directoras em níveis muito baixos, incentivando os bancos a acenar às famílias, atraindo-as com créditos ao consumo e à habitação com juros simpáticos, muito por via das taxas Euribor negativas, agora parece estar a pôr um travão na banca comercial e a estrangular os orçamentos familiares com as sucessivas subidas nas taxas de juro directoras, às quais está intimamente ligada a evolução das taxas de referência dos empréstimos bancários como, por exemplo, a Euribor.

Em tese, para provocar a contracção da procura repondo o equilíbrio entre a procura e a oferta e, assim, baixar o nível de preços dos bens e serviços (i.e. reduzir a taxa de inflação), o BCE deverá implementar subidas nas taxas de juro directoras. No entanto, parece estar claro que a actual situação soma duas parcelas: uma que se deve a um choque no lado da procura, previsível e de cariz temporário, justificada em grande parte pela ressaca de consumo provocada pelas restrições impostas pela pandemia; mas uma outra muito mais significativa, imprevisível e de cariz mais permanente, que se deve à dificuldade de acesso a matérias-primas e à crise no sector energético desencadeadas pela escalada do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Desta forma, os preços vão permanecer elevados mesmo que seja retirada liquidez à economia, algo que parece estar a ser ignorado pelo BCE, que nos comanda em prol da boa saúde da inflação, traçando um plano de guerra com base exclusivamente nas suas teorias de política monetária e nos gráficos procura-oferta, numa batalha que parece ter como resultado uma derrota social e económica.

NOTA: Este artigo apenas expressa a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.