Opinião

Os Putinions e a teoria da ferradura

Rui Rocha


As razões que levaram partidos como PCP ou Bloco de Esquerda a tolerar ou mesmo a tomar partido por Putin são fáceis de perceber. A esquerda radical tem um especial enlevo por todos os que representam uma visão antiamericana, anti-NATO ou contrária aos valores fundamentais das democracias ocidentais.

É claro que, no caso de um partido populista como o Bloco, sempre disponível para ajustar as velas em função do vento, juntou-se a este reflexo pavloviano um erro grave de avaliação. O Bloco não previu que Putin avançasse com tal brutalidade nem que a opinião pública viesse a considerar-se não como espectadora da invasão, como aconteceu com a Crimeia ou a Chechénia, mas como vítima potencial da agressão.

Se a intervenção se tivesse desenvolvido rapidamente e com âmbito limitado, o Bloco de Esquerda poderia ter mantido o alinhamento com as alegações de corrupção e infiltração da extrema-direita no Governo de Kiev, com a tese da raiz comum dos povos russo e ucraniano ou com a teoria de que se tratava de uma resposta necessária a provocações sucessivas da NATO. Mas as coisas não aconteceram assim e Francisco Louçã, Catarina Martins e Mariana Mortágua confrontaram-se com a necessidade de, num esforço brutal de contorcionismo, se descolarem da imagem de Putinions a que, entretanto, se tinham deixado associar.

Todavia, se estas são as razões que levam a esquerda radical a alinhar, de forma mais ou menos declarada, com o autocrata de Moscovo, importa também perceber os motivos que fazem com que a extrema-direita se entusiasme igualmente com o novo imperialismo russo.

O que terá contribuído para que Jerónimo, João Ferreira, Louçã, Catarina Martins e Mariana Mortágua, uns mais envergonhados do que outros, acabassem a marchar, a propósito de Putin, ao lado de Bolsonaro, Salvini, Le Pen, Trump, o vice-presidente do Chega Tânger Correia ou Maria Vieira?

A explicação é simples. Para a direita radical, Putin representa a autoridade, a soberania, a força e o nacionalismo, em contraposição ao pluralismo, que é visto como uma debilidade das democracias liberais. Neste caso, tal como prevê a teoria da ferradura, os extremos aproximam-se. Sejam de esquerda ou de direita, representam visões que preferem a pulsão totalitária à liberdade.

A pergunta que se deve fazer é, pois, a seguinte: em que posição estaríamos se, num momento destes, em Portugal ou na Europa, os camaradas de Jerónimo e de Louçã ou os companheiros de André Ventura tivessem realmente o poder de influenciar decisões?