Opinião

Os perigos do utopismo

Luís Cabral de Moncada


De vez em quando na história do pensamento ocidental aparecem-nos utopistas. Desagradados com o mundo tal como ele é, refugiam-se na fantasia das ideias puras e se a realidade não corresponde tanto pior para ela. A narrativa é sempre a mesma; os homens estão manchados por uma espécie de pecado original e há-que fazê-los regressar à primitiva pureza, aquela em que o leão convivia com o cordeiro. A justificação para esse regresso à «terra prometida» é uma doutrina infalível e o seu instrumento um partido omnisciente.

Querem assim convencer-nos que a história é linear ou seja, que caminha para um fim inexorável e conhecido à partida porque «cientificamente» fundamentado ou seja, para o comunismo. Como os homens são maus e entre eles abundam os malignos estes últimos sob a veste moderna do burguês capitalista e explorador é necessário conduzi-los no bom caminho iluminados pela voz de um profeta, chame-se ele como se chamar. Cabe ao partido conduzir os homens ao comunismo e pelo caminho tem o direito e até o dever de usar a força para reprimir os relapsos, seja sob a forma da polícia política e dos campos de «reeducação pelo trabalho».

O desígnio é o mesmo; a salvação está à vista e a vitória é certa não importando quantos cadáveres ficaram pelo caminho. A violência está assim justificada como disse Marx na sua Crítica do Programa de Gotha e é mesmo indispensável para lograr o objectivo.

Mas há outro utopismo mais moderado e muito vulgar no nosso país. É o da intrínseca bondade do Estado. Em consequência desconfia da Sociedade Civil. Os homens não podem ser deixados entregues a eles próprios. Há que recorrer ao Estado para os civilizar nos princípios igualitaristas e niveladores. É o Estado e apenas ele que faz com que os «ricos» paguem pelos pobres, os «cultos» deixem de o ser para que os ignorantes se sintam à vontade, que faz do mérito manifestação de «elitismo» ao mesmo tempo que instrui os jovens nas «verdades» politicamente correctas. O condutor para a salvação é o Estado, qual demiurgo da sociedade. A violência comunista foi substituída pelo imposto (que também, por ser confiscatório, é uma forma de violência).

Todas estas modalidades de utopismo são perigosas. Quem as defende julga-se certamente ungido não sei bem por que divindade para poder actuar em nosso nome e cuidar dos nossos interesses. Uns usam a infalibilidade do partido, outros a legitimidade das maiorias absolutas. Todo o cuidado é pouco.

O contrário do utopismo religioso ou político é o conservadorismo. Esta sabe que a sociedade não é um rebanho nem um conjunto de contribuintes ou de cidadãos votantes mas sim uma ordem integrada por pessoas na sua maioria razoáveis que se relacionam através de códigos de conduta que deram boas provas desde sempre e que não precisam de ser corrigidas. Sabe que as regras sociais são, na sua maioria, justas e adequadas e que o respectivo resultado é cada vez mais aceitável bastando para tanto que se deixem os homens pensar pela sua própria cabeça e tomar as decisões que entenderem nos limites da ordem jurídica. O conservadorismo vive de regras e desconfia de programas salvíficos. O discernimento do pretenso condutor espiritual, do partido ou do membro do governo em boa hora chamado à governação deve ficar reduzido ao mínimo que é como quem diz, a um papel subsidiário e marginal. Nós é que somos os senhores de nós próprios e não toleramos que nos impinjam aldrabices e soluções maravilhosas em detrimento das nossas liberdades.

As imperfeições sociais são inevitáveis. É indispensável o concurso do Estado para eliminar a pobreza, a ignorância e a exclusão social mas, a partir daí, deixemos o espaço livre aos cidadãos. O preço a pagar por permanentemente «melhorar» a sociedade através do Estado é muito alto. Não há qualquer garantia de que uma política pública corresponda, a partir de certa altura, aos reais interesses da sociedade. E não é por o Estado duplicar os funcionários públicos, elevar os impostos e chamar ao governo mais uns pseudo-iluminados que alguma coisa se melhora. Já é altura de confiar nas capacidades do português médio.

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