Opinião

Os novos profetas

Nuno Lebreiro


TÓPICOS

Se, por um lado, é verdade que o espírito do nosso tempo se faz de uma crença inabalável nos méritos do homem, por outro, esse imenso optimismo humanista, ao alicerçar-se numa das maiores ilusões intelectuais da nossa história, é bem capaz de encerrar dentro de si próprio as sementes da nossa destruição. Que ilusão é essa? A ideia completamente fantasiosa de que superámos, ou poderemos superar, a violência, bem como a fraqueza, da nossa condição humana – aquela que quase destruiu a Europa e o mundo ainda há pouco mais de 70 anos – e que continuamos a subir uma escada evolutiva infinita, sempre a progredir, sempre a melhorar, provenientes de um passado bárbaro e desprezível rumo a um ideal de progresso e florescimento humano que, mesmo que seja impossível de atingir na sua plenitude, se encontra no final do caminho, ou seja, no topo dessa mesma escada.

De acordo com essa ideia, hoje somos melhores, mais inteligentes e mais evoluídos do que aqueles que nos antecederam, vetustos seres perdidos algures na história e no breu definitivamente ultrapassado pelas luzes da Revolução Industrial. O rumo, pensa-se, é por definição sorridente: se a (r)evolução nos trouxe até aqui, e esse aqui é infinitamente melhor do que aquilo que já fomos no passado, então, o futuro só pode trazer mais evolução, mais progresso e, consequentemente, mais desenvolvimentos, avanços e melhorias, sonhando-se com as inovações tecnológicas do amanhã e imaginando-se os mundos quase perfeitos que os nossos filhos e, porventura, fruto das descobertas da medicina, nós próprios ainda teremos o prazer de desfrutar nas décadas e séculos que estão por vir.

Esta ilusão progressista – uma mera promessa, repare-se – serve de isco para uma ideia anterior, profundamente religiosa, que a sustenta: a noção de que, de algum modo, há um destino, um telos, uma finalidade para o universo e, consequentemente, para os homens também. É nesse telos que se descobre a razão, e o sentido, do mundo e, por conseguinte, uma justificação para a existência humana. Antes do advento da modernidade secular em que vivemos, esse porvir aparecia oferecido pela religião e era conhecido tanto pela fé como pela razão; hoje, com o triunfo do materialismo, sobra-nos a razão e a sua aplicação prática, a ciência, que traz a inovação, a tecnologia e o brilho cintilante da constante novidade.

Muita desta crença nas nossas próprias valias humanas, tal como na nossa capacidade para controlar o mundo – a húbris –, deriva de olharmos para nós próprios através daquilo que nos distingue dos demais: a nossa racionalidade, algo que faz sentido, pois que a tradição filosófica – bem como teológica, admita-se – do Ocidente sempre fez equivaler a componente racional do homem a uma ligação ao divino universal, o sempiterno que, inamovível, sustenta o mundo. No entanto, desaparecido Deus, hoje sobra-nos apenas essa racionalidade como elemento divino que eleva o homem, sozinho, ao Olimpo de onde, ufano, desdenha o mundo antigo que julga ter transcendido.

Ao mesmo tempo, habituou-se o homem ocidental a viver num autêntico paradoxo mental: por um lado, exalta a ciência, um caminho de perguntas, dúvidas e permanente incerteza, para, por outro lado, assumir que as conclusões que aquela atinge são definitivas, racionais, certas – e tudo isso porque são “científicas”. Assim, nesse paradoxo, alimenta-se a inovação a cavalo da verdadeira ciência, aquela que inventa, descobre e cria baseada no método científico, ou seja, na dúvida, ao mesmo tempo que depois se enquista, atola e tropeça na constante autocongratulação do novo conhecimento científico – logo, perfeito, permanente, salvífico – que se atingiu.

Em suma, onde a ciência nos ensina que a única coisa certa no mundo é a incerteza, a crença humana na ciência, paradoxalmente, acredita que a ciência trará uma solução final, perfeita, imutável, estática e harmonizante das diferentes cambiantes da vida – uma impossibilidade, evidentemente.

O paradoxo da solução científica, no entanto, norteia muito do nosso tempo: para cada conflito, percalço ou questão, recorrendo “aos últimos estudos”, “aos especialistas”, “às mais inovadoras técnicas”, permanentemente, lá se corre sempre atrás da “solução” – que depois, ao crer-se definitiva, passa a legislação. E de solução em solução, mesmo que por vezes contraditórias, caminhamos com a convicção ilusória de um ritmo seguro e infalível da nossa razão, do nosso conhecimento, cada vez mais cheios da certeza de que o futuro que os nossos passos buscam é melhor e, acima de tudo, mais verdadeiro do que o passado que ficou lá atrás.

É da solução científica permanente que imaginamos ir descobrindo que nasce o optimismo e a crença no progresso; e é dessa verdade racional que inventámos dentro de nós que vem o carácter protodivino que nos arrogamos possuir. Nietzsche anunciou a morte de Deus mas, na verdade, Ele apenas foi substituído por uma outra crença, uma crença na ciência materialista que nos salvará, não no além cristão, mas no aqui e agora do mundo material, através da revolução tecnológica com a qual a ciência nos oferecerá um admirável mundo novo.

No entanto, no mundo real, as soluções nunca são definitivas e os valores colidem. No mundo dos homens, postulados e decretos, por mais “científicos” que sejam, podem até ser incompatíveis. Por exemplo, será tão racionalmente válido eu desejar viver numa sociedade segura como numa sociedade livre – mas apostar numa delas implica invariavelmente prejudicar a outra; eu posso querer ser corajoso, mas a prudência não deixa de ser fundamental para uma vida bem vivida; eu posso sonhar com a justiça a presidir a organização social da minha comunidade, mas a solidariedade e a clemência também são valores importantes numa sociedade. No final, implica perceber-se que, se os valores colidem entre si, mais do que descobrir qual a receita ou solução certa ou verdadeira para o dilema social, a real questão que preside o julgamento humano será escolher qual o compromisso de valores que desejamos para as nossas vidas.

Este entendimento do mundo como um conflito entre valores que todos desejamos mas, porque não se pode ter o sol na eira e a chuva no nabal, entre os quais somos forçados a escolher, foi o fundamento real da ordem liberal. Já esta nova crença numa solução perfeita e científica para cada escolha que temos pela frente propagandeia a – e vive da – noção de que uma solução que é a certa, por ser racional e científica, então também é verdadeira. Ora, mas a verdade é eterna, imutável, divina e, mais importante, a verdade é apenas uma. Assim, chegamos à implicação que o racionalismo científico tem sempre por trás das suas boas intenções: para um problema que uma comunidade enfrente – imagine-se uma pandemia – há uma resposta certa, logo boa, e as outras são erradas, logo más. A resposta certa, naturalmente, será aquela que os “especialistas” e os “peritos” nos vendem, de bata branca, na TV.

Incrivelmente, este paradoxo profundamente anticientífico, ao arrepio de tudo o que milénios de reflexão filosófica e científica nos ensinaram, é hoje a base intelectual inconsciente da sociedade ocidental — e a razão da queda da ordem liberal.

Hoje esquecemo-nos de que não há soluções perfeitas, que a vida é uma escolha permanente e que o mundo é nosso para criar por entre as opções reais que temos pela frente — e não limitadas pelas certezas de uns quantos supostamente iluminados a um pequeníssimo número, quando não apenas a uma. Pelo contrário, é com aquela liberdade da escolha e da riqueza de opções que vem a correspondente responsabilidade individual, tão essencial à ordem liberal: naturalmente, se outrem decidir por nós, então não podemos verdadeiramente ser responsáveis por nada. Aliás, o determinismo racionalista mais não faz do que retirar o jugo da responsabilidade do pescoço humano e colocá-lo num pseudocritério racional que, sendo universal, sendo absoluto e infalível, assume a responsabilidade da escolha, escolha essa que deixa de ser humana ou individual para passar a ser cósmica, universal, racional – ou, pelo menos, assim canta essa ilusão vendida por quem hoje se faz passar por mensageiro da nova boa nova. Onde antes tínhamos os dogmas e os intérpretes das Escrituras, passámos agora a viver sob o julgamento e os ditames dos “especialistas”, mesmo que na sua maioria não passem de umas caras anónimas, sem grande curriculum, de guião na mão fornecido por alguém quando os pespegou numa cadeira giratória no estúdio de televisão.

Na verdade, estes especialistas, se o fossem, apenas poderiam falar das dúvidas e incertezas que os assaltam. Se, como é habitual, apenas falam de certezas, então não são especialistas em nada. Mas são, no entanto, os novos profetas: os heróis racionalistas, os “cientistas” que apregoam o que é racional ou bom, o que se deve fazer ou não, sempre cheios de saber absoluto, sempre cheios de soluções. Ponha-se um actor, de bata branca, caderno de notas na mão, a afirmar que “os últimos estudos” garantem isto ou aquilo e o sucesso é garantido, seja esse sucesso vender detergente, carros, pessoas – ou soluções para pandemias. Mais: se, ao invés de dúvidas e opções, os “especialistas” apenas vendem um caminho, uma solução, uma certeza, se as alternativas são caladas ou enlameadas, se a discussão se faz apenas com uma perspectiva, se todos apontam na mesma direcção, então é fácil reconhecer que essa sociedade já está condenada a abdicar da sua capacidade para decidir ou escolher por si própria. Alguém, nos bastidores, a priori, já escolheu por ela.

Infelizmente, hoje chafurdamos no falso conforto oferecido pela ilusão das certezas pseudocientíficas. Daí deriva o centralismo, o controlo, a conformidade, o monismo, o autoritarismo deste novo mundo pseudocientífico que, paulatinamente, aniquila a espontaneidade, a autonomia, a criatividade e a diversidade que caracterizaram a velhinha e defunta ordem liberal. Entre um mundo e o outro sobressai a diferença – enorme! – entre escravos e homens livres. Mesmo que a esse grilho mental nos dias de hoje se dê o nome de “ciência” e as maiorias, cedendo ao engodo da nova crença apregoada, benzendo-se no telemóvel, aplaudam a destruição de tudo aquilo que nos fez uma civilização livre.

E ai de quem se atrever a dizer que a “solução” do dia não faz sentido, não serve ou não é boa. Tal como em todos os cultos, será apedrejado como o herege que é. Isto porque podem os homens vestir os “novos” hábitos “modernos”, mas não deixarão de ser aquilo que são, sempre foram e nunca deixarão de ser enquanto forem homens: seres frágeis, amedrontados, por isso mesmo extremamente violentos e capazes das maiores barbaridades. Inimigos da sociedade aberta, para utilizar a terminologia de Karl Popper, sempre existiram. Tínhamos era, no Ocidente, sociedades que, pelos seus valores e cultura – de liberdade, tolerância, dignidade –, conseguiam resistir a esses apelos ao autoritarismo mental. Infelizmente para nós, os livres-pensantes, esses dias parecem aproximar-se do fim – se é que não acabaram já.

PUB