Opinião

Os nórdicos abrutalhados e o dolce far niente do sul da Europa

Tiago Mendonça


Vi um filme (fracote) na Netflix, “Toscana”. Basicamente, a história é a de um chefe dinamarquês bruto como tudo que vai a Itália, onde tudo corre de forma natural e em perfeita harmonia com a natureza. Na Dinamarca está nublado e, na Itália, um sol radioso. Uma tragédia e uma maravilha. O resto não digo, para não ser spoiler.

Mas temos muito esta ideia: ah, ok, os gajos do norte da Europa são muito competentes, mas são inábeis socialmente. Certo, produzem bem, geram riqueza, são disciplinados mas, depois, não sabem aproveitar as coisas boas da vida. Nós, por cá, somos pobrezinhos, mas temos um sol incrível, fazemos grandes comezainas, temos um vinho fantástico e desenrascamos tudo.

Só que não. Quando perguntamos a alguém se está bem, quase sempre levamos com um “vai-se andando”. Raramente um “estou bem! Estou mesmo bem! Estou feliz. Olha, pá, sim, corre tudo bem, estou contente com a minha relação, no trabalho”. É um mito bastante grande que somos pobrezinhos, mas felizes. Vamos lá ver os dez países mais felizes do mundo segundo as estatísticas internacionais:

Finlândia, Dinamarca, Islândia (todos no sul da Europa...), Suíça, Holanda, Luxemburgo, Suécia, Noruega, Israel e Nova Zelândia.

Pois. Na verdade, aquela ideia de que o dinheiro não traz felicidade não corresponde à verdade. É evidente que o dinheiro não é um fim em si mesmo. Uma pessoa com muito dinheiro pode ser miserável. A saúde é o bem mais precioso. Uma rede pessoal/social forte é importantíssima. Mas o dinheiro ajuda. É, por isso, muito normal que os países mais ricos sejam os mais felizes. Os cuidados de saúde ou educação são melhores, conseguem mais facilmente ter habitação, não têm a pobreza energética que temos, com dezenas de milhares de pessoas com frio nas suas casas.

Claro que temos (nós, Espanha, Itália, Grécia...) condições de base fantásticas. São muito agradáveis as temperaturas em Portugal, de facto, temos uma gastronomia dificilmente batida por qualquer outra. Outros países terão outras coisas. A questão do desenrasque, normalmente, aparece como uma qualidade apreciável, mas é mau sinal: é que nos colocamos nas situações enrascadas. O planeamento e a organização (nórdicas?) ajudavam a que isso não fosse necessário. Depois temos uma cultura laboral dantesca, do pior que existe no mundo – ninguém pode ser feliz com duas, três horas em deslocações por dia para receber menos de metade do que recebe um irlandês, por exemplo. A ideia (para nos massajar a alma) de que eles são uns brutos incapazes de gozar as coisas boas da vida é, evidentemente, falaciosa.

Um estilo de vida descontraído, em comunhão com a natureza, com tempo para os tais convívios, parece-nos bastante aprazível e, na realidade, é muito mais provável que “eles” tenham tempo para isso do que nós. Ok, na Finlândia não vão mergulhar na praia em Abril, mas vão à sauna frequentemente. Na Islândia, no final do dia, bebem um copo nas piscinas a 40 graus enquanto neva lá fora. Mas o próprio conceito de felicidade é subjectivo. Pode haver quem seja feliz a trabalhar muito, muito, muito.

Aquilo que deveria preocupar-nos, enquanto portugueses e enquanto sulistas, é como podemos ser mais felizes. Tenho escrito sobre isso variadas vezes. Uma profunda mudança na forma como encaramos as relações laborais era um início.

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