Opinião

Os 12 trabalhos de Paulo

Nuno Lebreiro


No próximo Domingo, dia 26 de Setembro, teremos as eleições autárquicas. À direita, a data parece fundamental para aferir se, por um lado, as lideranças tanto de Rio como de Rodrigues do Santos têm condições políticas para continuar e, pelo outro, se aqueles que pretendem disputar esses lugares revelam ânimo e tarimba para vencer a contenda. Na realidade, a corrida já começou — mesmo que o tiro de partida só seja oficialmente disparado no Domingo.

No PSD, o candidato a candidato que corre mais destacado para atacar a fortaleza do Dr. Rui Rio e, consequentemente, fazer acreditar a militância do PSD numa possibilidade para derrotar António Costa, é Paulo Rangel. Ora, para ser bem-sucedido, são 12 os hercúleos trabalhos que Rangel tem pela frente:

1. Uma conclusão que se pode retirar das últimas eleições do PSD é que tendo o vencedor que — seja à primeira, seja à segunda volta — obter mais de 50% dos votos, nem todos os votos dos candidatos menos votados na primeira volta se conseguem unir contra o adversário comum, no caso Rui Rio, na segunda. Há dois anos, na primeira volta, Miguel Pinto Luz e Luís Montenegro somados tiveram mais de 50% dos votos; na segunda volta, Montenegro, mesmo com o apoio de Pinto Luz, não chegou aos 49%.

Assim, como camisola amarela desta corrida contra-Rio, o primeiro trabalho de Paulo Rangel será o de garantir que consegue federar a oposição a Rio numa única candidatura capaz de vencer as eleições à primeira volta. Nesse sentido, a primeira abordagem parece ter sido uma união de esforços com Miguel Pinto Luz. Aliás, foi precisamente esse o repto que aqui deixei há duas semanas atrás.

Falta, no entanto, Luís Montenegro que continua a “ponderar” se avança ou não. Sinceramente, não descortino que razão poderia levar o ex-líder parlamentar do PSD a candidatar-se de novo este ano: depois de ter perdido as últimas eleições, fustigado por acusações de como se teria “precipitado” ou “falado de mais contra o líder”, resolveu o ex-candidato passar os últimos dois anos remetido ao silêncio. No entanto, se antes pecou por excesso, agora é certo que pecou por defeito: onde o problema de Montenegro no país já seria falta de notoriedade, então agora ainda mais grave essa questão será. A verdade é que, naquilo que concerne o militante comum, Montenegro há muito que desapareceu.

Por vezes é importante reconhecer que há alturas onde mais vale estar quieto: Paulo Rangel terá que explicar a Montenegro, com simpatia, que mais vale apoiá-lo do que lançar-se numa candidatura onde apenas irá perder tempo, dinheiro, credibilidade e, pior, eventualmente, ajudar Rui Rio a manter-se no seu poleiro.

2. O mesmo terá que ser dito a Jorge Moreira da Silva, o corredor social-democrata sem bicicleta, que é como quem diz: sem apoios, sem hipótese de vencer, apenas de atrapalhar. Patrocinado por Davos, aparece cheio de discurso Build Back Better, coisa que pode fazer algum sentido nas reuniões internacionais da OCDE, mas que significa pouco ou coisa nenhuma numa sede do PSD. Aí, as pessoas estão preocupadas com os impostos, os empregos, a saúde e a educação dos filhos, tudo coisas que o socialismo verde exagerado do World Economic Forum promete piorar, senão perverter.

Paulo Rangel também poderá explicar a Moreira da Silva que o militante tipo do PSD dispensa cartas e emails em que é saudado com um “Car@ Amig@“. Pode Moreira da Silva achar-se moderno e trendy, mas se quer “arrobas” no discurso político poderá fazê-lo melhor e mais eficazmente no Bloco de Esquerda, ou na Iniciativa Liberal, do que no PSD.

3. O Domingo das eleições autárquicas será um dia difícil para o partido. Mais uma derrota será averbada, mais um ciclo de poder autárquico será entregue ao PS, porventura com algumas câmaras perdidas inesperadamente para outros concorrentes também. Os resultados a Sul do Tejo serão particularmente maus, tal como nas capitais de distrito, aumentando a ideia de que o PSD é cada vez mais um partido regional, estabelecido a norte, e não urbano — onde o PS, a IL, o BE e o PAN, somados, dominam a grande maioria do eleitorado — longe, portanto, de voltar a conquistar São Bento.

Paulo Rangel terá que ser a voz da esperança. No entanto, é ténue e muito fina a linha que separa optimismo num momento negro do irrealismo populista. Aliar realidade, por mais crua que seja, com sobriedade e esperança será aquilo que os militantes do PSD quererão ouvir num momento que se quer de mudança. Em toda a sua carreira política, até hoje, com o país inteiro a assistir em directo, essa intervenção será a mais importante que Rangel terá que proferir.

4. Depois a comunicação social. Paulo Rangel terá a espinhosa missão de conseguir furar o muro de betão mediático que a oligarquia portuguesa erigiu em defesa do PS e das causas da esquerda neo-marxista. Conseguir apresentar uma candidatura que ultrapasse a barreira mediática e chegue directamente aos portugueses será pivotal. Para isso, terá que inovar. Desde a utilização das redes sociais a uma estratégia agressiva de media tradicional, dos slogans à imagem, tudo terá que ser pensado cuidadosamente para colmatar uma das grandes falhas do último verdadeiro projecto de poder do PSD: o de Passos Coelho, onde a comunicação sempre foi o ponto fraco da governação 2011-15.

5. O programa eleitoral. O grande pecado de Rio foi o de dividir um partido que, em condições naturais, é a grande casa da direita. Ao assumir-se como uma espécie de o mais puro dos puros social-democratas, Rio repudiou todo um legado do partido, bem como quadros, militantes e eleitores. Ainda para mais, foi logo escolher como única bandeira o pilar ideológico mais próximo do PS. Ou seja, amputou parte do partido, renegando-o, e perdeu capacidade de mostrar que é diferente do PS, tornando-se irrelevante. Paulo Rangel terá então que apresentar um conjunto de propostas já a pensar nas eleições de 23, ou seja, que representem uma verdadeira alternativa ao PS, mas também que sejam capazes de mobilizar e unir o próprio PSD.

6. Cumpridos os primeiros cinco trabalhos, Paulo Rangel terá conseguido unir a oposição a Rio, bem como apresentar um projecto convincente para a sociedade portuguesa e, daí, fazer crer o militante do PSD que é possível derrotar o PS nas próximas eleições. Terá então que galvanizar os militantes para que, de facto, em Janeiro, descarreguem os votos nas urnas e o elejam como Presidente do PSD.

7. Derrotado Rui Rio, será preciso colocar ordem em casa. Desde logo, reconciliar o partido consigo próprio, em particular com o legado de Passos Coelho. Assumir a sua história, sem pejos, mas com a apresentação de um novo rumo, adequado à nova realidade do país, e desfazendo o garrote pseudo-ideológico de Rui Rio. Urge, pois, reconciliar o passado para libertar o futuro, abrindo o partido, quer a uma nova geração, quer a novos quadros da sociedade portuguesa.

8. Daí, o objectivo passará por restaurar o PSD como a casa-mãe da direita, corporizando uma opção política que congregue elementos social-democratas, conservadores, democratas-cristãos e liberais. No entanto, de chavões ideológicos estão as pessoas fartas. Essa reconciliação faz-se, então, com a apresentação de propostas práticas que, primeiro, apelem a esses diferentes eleitorados simultaneamente, mas sem que se perca tempo a explicar os méritos e posicionamentos ideológicos, quer do partido, quer das propostas. A proposta será, então, concreta, simples, realista, pensada e dirigida para os diferentes eleitorados que se pretendem mobilizar e deixando a discussão estéril ideológica para os comentadores.

9. Em sendo bem-sucedido, o PSD afirmar-se-á por si próprio como uma alternativa política com soluções para a crise constante socialista. Ao mesmo tempo, também retirará fulgor às alternativas à direita que, verdade seja dita, apenas cresceram nos últimos anos cavalgando o vazio que o garrote e o purismo pseudo-ideológicos de Rio criaram. Há então que liderar a direita e enfrentar sem pejo e sem perdão a governação socialista, fazendo aquilo que Rio sempre se demitiu de fazer: oposição.

10. Mas isso não basta. Vivemos num mundo novo onde as tentações autoritárias estão à espreita, em particular quando governados por um PS que coloniza o aparelho de Estado, tal como o judicial, fragilizando por todos os meios as próprias instituições democráticas. Rio, nesse aspecto, deixa também um legado miserável: desde o silêncio face às medidas Covid-19 até ao famigerado apoio ao Artigo 6º da Carta dos Direitos Digitais, desde afirmar querer mudar a Constituição visando a detenção sem mandato judicial de “pessoas infecciosas” até ao abandono dos debates quinzenais, desde as negociações permanentes e secretas sobre reformas da justiça com o PS até ao seu próprio desprezo pela independência política dos órgãos judiciais, no que concerne a qualidade da democracia portuguesa, em quase tudo, Rio esteve sempre do lado errado.

O PSD, se quer honrar o seu legado político em Portugal e liderar a direita numa nova maioria capaz de reformar o país tem que ser, desde logo, o primeiro defensor do Estado de direito, da liberdade e da qualidade democrática em Portugal. Ponto final.

11. E daí para a gestão Covid-19. Não se pode ignorar o elefante no meio da sala, por mais pesado e difícil de manobrar que seja: há que ter a capacidade de demonstrar que é possível lidar com uma pandemia sem suspender a Constituição. Focar a protecção nos grupos de risco ao invés de fechar a sociedade toda por igual, denunciar passaportes sanitários como uma discriminação inaceitável (ainda para mais quando apenas oferecem falsa sensação de segurança uma vez que os vacinados transmitem a doença e adoecem também), defender a liberdade individual na gestão do próprio corpo rejeitando a vacinação obrigatória, desde logo nas crianças que não sofrem com a doença, apostar forte nas terapias já disponíveis e, muito importante, libertar os médicos e os portugueses para o livre debate de opinião, sem censuras, limitações ou acusações. Em tudo isto falhou o PS, em tudo isto falhou também Rui Rio.

12. Finalmente, superados estes onze trabalhos, estará então Rangel em condições para vencer António Costa, ou o seu sucessor. No entanto, uma vez derrotado o PS em 23, todo um novo esforço hercúleo se colocará diante do líder do PSD: um país falido, dependente do BCE, uma economia em cacos, tudo para reconstruir. Na realidade, o caminho de pedras de Paulo Rangel até 2023 será apenas o início de uma missão muito maior — e ainda mais difícil.

Que não lhe falte ânimo.

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