Opinião

Oportunidade para mudar (mesmo)

Adalberto Campos Fernandes


O sistema de saúde enfrenta um período de enormes desafios relacionados, em grande medida, com as alterações da demografia e das condições económicas e sociais. Vivemos mais anos, mas não conseguimos ainda assegurar a qualidade de vida dos anos ganhos. A diferença que nos separa, por exemplo, dos países do norte da Europa faz com que a nossa esperança média de vida, medida em anos livres de doença, nos afaste desses países em mais de uma década. As alterações registadas na distribuição da doença, da sua relação com o meio e as condições de vida transformaram o panorama da saúde das pessoas.

O país melhorou muito nos últimos 40 anos, nas suas diferentes dimensões. O caminho percorrido até aqui revela progresso e evolução, sem dúvida alguma. Mas o mundo que temos diante de nós está a mudar a um ritmo muito superior do que aquilo a que nos habituámos nas últimas décadas.

No que diz respeito ao sistema de saúde e ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), é impossível comparar a realidade actual com aquilo que existia à data da sua criação, em 1979. As necessidades de saúde adquiriram uma expressão diferente e complexa, obrigando a encontrar respostas inovadoras para a sua satisfação. A interligação entre políticas e sectores tornou-se mais estreita e mais interdependente.

A saúde representa um dos principais motivos de preocupação das sociedades modernas. Os diferentes inquéritos de opinião realizados ao longo do tempo revelam que a saúde se encontra no centro da atenção dos cidadãos. Esse facto resulta da convicção profunda de que a melhoria da saúde representa uma condição indispensável para o desenvolvimento humano. A mudança necessária implica uma visão estratégica capaz de estabelecer um rumo claro, compreensivo e gerador de confiança. A complexidade do sistema e do SNS requer, por parte de quem o dirige e organiza, conhecimento, experiência e maturidade. O que está em jogo é demasiado importante para ser deixado ao improviso e ao experimentalismo.

Portugal criou um dos melhores sistemas de saúde do mundo, melhorando de forma muito significativa os diferentes indicadores de saúde. Na comparação internacional, o país regista, nos indicadores de saúde, um desempenho global mais positivo do que aquilo que acontece noutros sectores. O sistema de saúde e o SNS precisam, com urgência, de pragmatismo, diálogo e efectividade na resolução dos problemas. Um pragmatismo baseado na melhor evidência disponível, capaz de replicar, em cada momento e em cada espaço do território, as melhores práticas. As crises sucessivas diminuem a confiança e desmotivam as pessoas. Para mudar é preciso conhecer a essência dos problemas e envolver todos no processo de mudança através do respeito pelo que se faz, e nunca pela autoridade conferida (apenas) pelo poder.

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