Opinião

OE2023: vem aí um Orçamento de guerra

Filipe Alves


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Após sete meses de guerra na Ucrânia, é cada vez mais evidente que as consequências económicas do conflito serão profundas e de longo prazo. O Inverno que se aproxima será particularmente difícil e vários países poderão ficar sem gás e electricidade. Se pensarmos que, em alguns desses países, os Invernos são realmente rigorosos, com neve, gelo e temperaturas negativas, percebemos como a situação poderá complicar-se. Os próximos meses serão, pois, um teste à resiliência dos europeus e da União Europeia. Se, para que um país possa ter gás, outro tiver de ficar sem energia, a unidade da Europa estará em risco. A União tem de responder colectivamente a este desafio, sem cair no “cada um por si”.

Por outro lado, os próximos meses deixarão claro que, pela primeira vez em 70 anos, a Europa está a entrar numa economia de guerra, com os países a mobilizarem recursos cada vez mais consideráveis para enfrentarem os efeitos do conflito e para se rearmarem após décadas de paz. A Alemanha, que ainda há poucos anos tinha um exército que servia apenas para missões de paz, está agora a caminho de se tornar a maior potência militar do continente. E, quiçá mais significativo, está a fazer isso de forma consciente e anunciando ao mundo esse desígnio.

O regresso da Alemanha à liga das grandes potências militares, ultrapassando a França e o Reino Unido como principal player europeu de segurança, representa uma nova era no Velho Continente.

Tal apenas foi possível porque a China está a obrigar os EUA a voltarem-se cada vez mais para a Ásia. Ainda há dias foi divulgada uma simulação que aponta para que, num cenário de guerra em volta de Taiwan, os americanos percam quase toda a sua frota de aviação estratégica - cerca de 500 aviões - nas primeiras semanas de guerra. De acordo com essa simulação do Center for Strategic and International Studies, que previa apenas o uso de armas convencionais, os EUA perderiam também dois porta-aviões, com cinco mil tripulantes cada, existindo a possibilidade de a China sair vencedora. Estes números mostram a gravidade do desafio que a China representa para os EUA e explicam porque estão estes últimos a retirar gradualmente da Europa.

Por outro lado, esta viragem na política de defesa alemã só é possível porque centenas de milhões de europeus estão cada vez mais aterrorizados com a possibilidade de uma guerra com a Rússia, que provavelmente envolveria o uso de armas nucleares.

Neste contexto, Portugal pode considerar-se relativamente afortunado. Tal como em conflitos anteriores, a nossa posição geográfica permite-nos algum sossego, embora o facto de fazermos parte da NATO signifique que não somos neutrais. Ouvindo os nossos políticos, parece que as nossas guerras continuam a ser de alecrim e manjerona. Mas a realidade irá bater-nos à porta mais tarde ou mais cedo e é importante que o Governo seja transparente nas previsões macroeconómicas para 2023. Daí que as declarações do Presidente da República a este respeito sejam pertinentes. O que aí vem não será fácil e o OE2023 terá de ser um Orçamento de guerra.